Friday, June 26, 2009

Mármore

Andava mal das pernas,
parecia que a esquerda era um cotoco.
Ainda por cima depois de bêbada, trôpega.
Suas ancas, porém, eram uma epifania.
E eu saio do boteco atordoado,
branco que nem tivesse visto fantasma.
Deem-me aquelas coxas e moverei o mundo.

21/7/2009

Monday, June 08, 2009

o caminhão do gás

o carro do gás canta agudo o que nos há de explodir,
um avião mergulha no oceano e traga bandejas do jantar,
o secretário da cidade do interior volta do pagode e esmaga Kombi e família.
um lindo dia de outono, e estas folhas que caem sobre nós como mementos.

minha alma

minha alma anda turva
como a água a entupir minhas vias
respiratórias.
lágrimas sem filtro,
trilhas desandadas,
parece que tudo vai dar numa cachoeira de abandono.
(numa final inédita de meu campeonato
eu torço para qualquer time que ganhe,
desde que haja partida.)
fico pensando se é bom escrever este poema.

Sunday, February 22, 2009

What are you doing with the rest of your life?

What are you doing the rest of your life?
North and south and east and west of your life?
I have only one request of your life
That you spend it all with me.
All the seasons and the times of your days.
All the nickels and the dimes of your days.
Let the reasons and the rhymes of your days.
All begin and end with me.
I want to see your face,
In every kind of light,
In fields of gold and
Forests of the night;
And when you stand before
The candles on a cake.
Oh let me be the one to hear
The silent wish you make.
Those tomorrows waiting deep in your eyes
In the world of love you keep in your eyes,
Ill awaken whats asleep in your eyes,
It may take a kiss or two..
Through all of my life..
Summer, winter, spring and fall of my life,
All I ever will recall of my life
Is all of my life with you.

Friday, January 30, 2009

Para Olívia

Por minha filha estarei em estado
de eterna vigília.
Por ela, sempre, meu coração
vibrará em cada corda que ela tocar.

Thursday, January 08, 2009

Por uma Palestina livre

COM OS DENTES

Tawfiq Zayyad

Com os dentes
Defenderei cada polegada da minha pátria
Com os dentes

E não quero nada em troca dela
Mesmo que me deixem pendurado
Nas minhas veias

Aqui permaneço
Escravo do meu amor...
à cerca da minha casa
Ao orvalho...e às géis flores do campo

Aqui continuo
E não poderão derrubar-me
Todas as minhas dores

Aqui permaneço
Com vocês
No meu coração

E com os dentes
Defenderei cada polegada da terra da pátria
Com os dentes

Sunday, December 21, 2008

A Tempestade 2 (andante cantabile)

Veja o trovão:
troveja.

A Tempestade

Primeiro de novembro de 1611.
Somos feitos da mesma substância
de que são feitos os sonhos,
a metamorfose de Ariel,
nossos desafetos em uma ilha.
E a vida só é precisa quando a dor dói direito.

A tua voz

De tua voz brota
A suavidade que cobre tua pele.
Assim eu sou ouvidos e mãos e corpo
nesta toda imensa benção.
Assim meus olhos desvendados se alumiam,
tempestades, vento, sol, maresia, águas que despencam de nascentes
varrendo tudo desde sempre e até nunca mais.

Monday, December 08, 2008

Senex

Teve um dia em que acreditei num fiat lux.
Mas hoje a vida parece
um montão de fósforos queimados.

Friday, December 05, 2008

O Lago dos Cisnes

Nao joguem comidas aos animais.
Não é por isso que irão dançar.
Irão dançar como sempre atavicamente dançam.
No farfalhar das asas todas
tem um mundo que se chama mundo.

Thursday, December 04, 2008

Zero Hora

Não é mais hoje
e mal ainda é amanhã.
Venta pedras sólidas
e meu corpo esfacelado
se agarra a um poste
onde um cão mija, indiferente.
Está em minhas mãos,
está em minha memória,
estão em minhas chagas
estas lascas despregadas de tempo,
estas coisas que flutuam, baças,
opacidade de céu de neve.
Eu saúdo a súbita apreensão de mim.
A musa nasce, eu parto, velas enfunadas,
faróis dormentes em arrecifes,
a navegação pelo cheiro,
a vida exala alga e rosmaninho,
cozinha de nuvens, marcos onde restam atirados
o que sobrou e o que há por vir.
Zero hora em todos os meridianos,
nos significados todos,
e o jazz soa doce alheio a tudo.

Tuesday, September 30, 2008

Sempre

Seu corpo se verga
ainda quando nem mais insisto.
Seu tão vário e mesmo abrigo
disfarça mal o que quer que juntos conjuguemos.
Nem verbo mais eu tenho:
de amor tanto sou sua poesia,
e sou outro.

Wednesday, July 30, 2008

Poema

A oxidação pousou em minha lingua como o sabor da desaparição.
O esquecimento entrou em minha lingua e nada tive a fazer senão o esquecimento
E não aceitei outro valor além da impossibilidade.
Como um barco calcificado em um país do qual se tirou o mar,
Escutei a rendição de meus ossos depositando-se em descanso;
escutei a rápida fuga dos insetos e a retração da sombra ao ingressar no que restava de mim;
escutei até que a verdade deixou de existir no espaço e em meu espírito
e não pude resistir à perfeição do silêncio.

(Antonio Gamoneda)

Tuesday, July 29, 2008

Pedaço de mim

















Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

(Chico Buarque)

Sunday, July 27, 2008

Escolhas









Ao longo de toda a nossa vida temos de enfrentar decisões angustiantes, eleições morais. Algumas são de grande escala; a maioria destas escolhas se centram em questões menores. Mas todos nos definimos através de nossas escolhas. Somos, de fato, a soma total de nossas escolhas.

(Primo Levi)

Saturday, June 28, 2008

Don´t Explain
















Hush now, don’t explain;
There ain’t nothing to gain.
Well, I’m glad you’re back,
But don’t explain.

Quiet, baby, don’t explain;
You know there ain’t nothing to gain.
Skip that lipstick,
And don’t explain.

You know that I love you,
And what love endures.
All my thoughts are of you,
I am so completely yours.
Don’t wanna hear nobody chatter,
‘Cause I know you cheat.
Right or wrong, don’t matter,
When you’re with me, sweet.

Hush now, don’t explain;
You are my joy, and you’re my pain.
My life’s yours, love
So don’t explain.

You know that I love you
And what love endures.
All my thoughts are of you,
I am so completely yours.
Don’t wanna hear folks chatter,
‘Cause I know you cheat.
Right or wrong, don’t matter,
When I’m with you, sweet.

Hush now, don’t explain;
You know, you’re my joy and you’re my pain.
My life’s yours, love,
Don’t explain.

(Billie Holiday/Arthur Herzog Jr.)

Friday, June 06, 2008

Imagem

Quando agora eu não preciso
E nem precisar mais sei
Eis que tu me arroubas com tua imagem
num sonho:
E volto de volta a você.
As coisas semelham nuvens,
Às vezes as nuvens semelham nada.

Zé Eduardo

Saturday, February 23, 2008

Y revisitada (2)

Estas coisas que o tempo não disfarça, ou engana.
Estas marcas que nada pode lavar,
nada que se conheça ou venha a ser descoberto,
sofás tintos de vinhos tornados prováveis
onde você escorre desabaladamente.
Bancos de praças nos quais me deito mirando
estrelas que remetem sempre a tuas doces constelações,
selvageria de gritos, esta baderna amorosa
que resolvi contra tudo e tanto querer,
mulher dos circos, abacadabra, truques da simplicidade extrema
a que resolvemos nos resumir.

Friday, February 22, 2008

Y revisitada











Pouco mais de metro e meio de vastidão
e a chave.
O suor que escorre de tua pele banha o mundo,
este perímetro em que o desejo pouco importa,
uma vez que sempre virá como tudo que passa
para sempre voltar, renovadamente.

Zé Eduardo, 22/02/2008

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