Sunday, June 01, 2014

Domingo de Finados


Domingo de Finados

Embora seja já dezembro,
mortos me visitam obliquamente da garoa
(ainda que todos não tenham falecido).
A roda gigante gira no parque Xangai
e a mísera pipoca partilhada
é bem mais que refeição
de seis irmãos famintos.
Meus pais fazem sempre a conta
e estamos todos, e faz sol no ermo centro da cidade, e comemoramos este dia 
porque, e não sabemos, ele há que perdurar das imagens do trem fantasma,
a conduzir nossos temores 
e a substância da qual seremos feitos.
Regressamos exaustos para casa
e a comida incerta nos espera.
Diligentes, cansados, felizes,
meus pais poem a dormir crianças 
em leitos do tempo que é hoje,
em noite para sempre alvissareira.

12.1.2013

Inverno


A água ferve na caneca
e o vapor contracena na janela com o frio.
O inverno silencia a rua e a calçada,
buzinas adormecem nas garagens,
uma bruma opaca tolda tudo.
Em algum lugar faz sol
e a alternância do tempo apenas prova
que habitamos todos por enquanto esta esfera de prodígios.
Em algum lugar o calor despe corpos que, lassos,
refluem do afazer doce do amor.
E, neste fim de tarde entorpecente,
contemplo as estrelas que não vejo no céu baço
e abençoo esta temperatura mansa
que em qualquer estação você me traz.

Esta água toda


Esta água toda
que desce do calor de teu regaço,
esta benvinda chuva a tudo lavar,
cinza a desfazer em céu azul,
branca e transitória lua,
sol que brilhará depois e sempre,
meu ninho, meu descanso, meu arfar e meu repouso.
Minha vida é regar o solo de onde brota a tua rosa flor.

17.12.2013

Calma

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Bate em mim uma calma,
mas nada a prenunciar uma borrasca.
A calma, mesmo, esta lassidão enfim conquistada.
A confortante sensação de que sofrer vale a pena
quandos se sofre direito.
Eu não cresço:
se alguma coisa, em minha idade, encolho.
Me substancio e, ainda que cansado,
agradeço todas as manhãs trilhar o que a vida me deixa.
Eu não ergo as mãos para o céu:
ele está em cima, abaixo, me cobre e me tangencia.
Pode ser que eu esteja orando.

12.4.2013

Herança


Nenhum ser humano sabe nunca jamais
se o tempo lhe fará justiça.
Entrementes, vivemos, e os sinos tangem sós em suas torres o passar das horas.
Nada mais podemos esperar porque seremos sempre julgados, ainda que à revelia,
por pecados, omissões, coisas que deixamos de dizer quando o momento se fez apropriado.
Somos um reflexo tardio de nós mesmos,
e nossos gestos pouco importarão, relegados ao olvido das sombras e das cinzas.
Somos esta triste matéria bruta que julgamos ter polido e cinzelado,
enquanto outras mãos moldam a memória que de nós irá restar,
e quedamos mudos com tantas palavras
que nos amaldiçoam e nos glorificam.
Somos uma tarde de convecções nossas, e alheias,
num quieto tumulto que há de nos comer, vermes sobre corpos insepultos.
Somos uma triste memória
a viver sempre aquém da eternidade,
presos ao que no fundo pouco nos diz respeito.
Amamos, somos amados,
e nosso consolo é ter vivido,
ainda que de precária forma,
porque nada restou de uma herança de miséria.

São Paulo, 4 de março de 2013

Para Clodoaldo Mendonça, meu pai

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Em tudo o que eu faço, e que importa,
reina soberana sobre mim a alma de Clodoaldo Mendonça, meu pai.
Os caracteres traçados a pena de uma maravilhosa escrita gótica alemã,
os filmes de Tom Mix, o cineblube operário da esquina
onde deslumbrado vi o primeiro cinema da minha vida (e era como sempre dele veio, a fábula moral, a legião francesa em pano de fundo),
a curiosidade a me perseguir desde menino, este querer saber tudo
porque afinal de contas saber tanto é de alguma forma uma forma de eu me redimir,
os jogos de damas com suas permutas tão mais rápidas e vastas que o saber inútil do xadrez (um afazer de preguiçosos),
as melodias, tantas, músicas tecendo o coser do que viria a ser quem eu seria, Zézinho, Zébedeu, filho,
os dias tantos, pobres, famintos, embora nunca faltos,
porque neles se sinalizava esta ordem de importância
na qual a poesia sempre vem primeiro,
afinal o saber que onde ando será sempre um desafio, trilha desde sempre nova,
comunhão com tudo que é humano.
Eu saúdo você, meu pai,
eu inutilmente peço que você volte e choro a escrever neste anódino teclado,
tentando com tão frágeis dedos desvender a sua herança e a sua força.

23.12.2012

Sempre tão tamanha


E você é sempre e tão tamanha,
e suas pernas longas espalhadas no sono de fim de tarde no sofá
estão para começar a andar de novo
e só Deus sabe para onde vão me levar.

27.12.2012

Breve será o tempo que nos separa

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Breve será o tempo que nos separa.
Longos e plenos serão cada um de nossos dias,
Tardes preguiçosas de verão,
Noites tintas de alumbramento,
E as manhãs, douradas, pomos de nosso delicado arfar.
Voltaremos aonde nos pertencemos,
Desde sempre e para todo o sempre.
A leveza dos teus panos tremulará nos ventos
E a calma voltará à superfície das águas.

Meu coração anda vertendo nuvens.

10.10.2012

Friday, October 12, 2012

Com um ramalhete de flores do campo na mão,
Paro na soleira da porta esperando a minha noiva.
Alta, magra, inquebrantável,
Ela vem em minha direção desde antes de tudo.
Eu vinha caminhando, também,
Mas agora me achei aqui estacado,
A me dar conta de sua forma, bela e ineludível.
Finalmente, atrás da porta, há uma casa agora pronta.
Nossos braços se abrem
E somos engolidos pela vida.


SP
12.10.2012

Monday, July 30, 2012

Há aves destinadas ao abate em pleno vôo.
Há pássaros que despencam dos galhos em súbitos desmaios,
Aturdidos com a delicadeza do rufar das folhas.
Há espécies canoras, cantando para o empetecado desfrute dos ingênuos
em suas ingênuas excursões ao campo.
Há as penas violentadas na rapina,
Na lei natural das coisas dos livros de biologia.
Há curiós assobiando de dentro de gaiolas o hino nacional.
Meu coração não desiste.
Ainda não chegou a minha hora.

São Paulo, 30 de julho de 2012

Saturday, July 28, 2012

Como a alga em que me enredo quando nado em meu mar primordial,
algo a cantar fundo em mim
com esta voz que teimo sempre em reconhecer,
substância concreta ao alcance de mãos que não a toca,
alamedas de árvores crestadas
esperando uma improvável primavera,
labirintos de barbantes invisíveis e um monstro lá dentro a esperar calado,
vulcões jamais extintos à espreita,
sombra minha que um dia há de me matar.

São Paulo, 15 de julho de 2012

Tuesday, June 19, 2012


Como costurar pano esgarçado e dele fazer tecido novo.
Como ver no fundo do poço escuro os medos e quão rasos eram todos os temores.
Como exercitar com leveza o que estava paralisado,
Pássaro que chacoalha a umidade de suas asas e alça vôo,
rumo ao céu turvo atrás do qual sempre estará o céu, tão claro e limpo.
De lado eu deixo o que deve ficar de banda,
De frente encaro tua realidade súbita e indelével,
De todo modo amo tudo que em ti vejo
E meu coração salta como se salta do ônibus andando,
Movimento somado a movimento,
Corpos, palavras que se entrelaçam,
Fonte de onde bebo em grandes goles minha vida.

São Paulo, 18 de junho de 2012

A gente tem de sussurrar,
falar perto da pele,
a única instäncia que no final das contas há de ouvir.
Temos de medir a temperatura da água
com a insensibilidade de nossos cotovelos,
como alguém prestes a banhar a infância.
Precisamos estar atentos, dormência vigilante das corujas,
a todos os sinais no meio de cada noite.
De resto, que Deus nos abençoe.

São Paulo, 18.6.2012

Wednesday, June 06, 2012

Teu vapor move minha locomotiva.
Teu calor impele cada pensamento e cada sentimento meu,
e eu desbravo montanhas, atravesso mares encapelados, caminhos tresandados,
só para estar sempre perto de você.
Tu me ajuntas todo, em cada pequena instância deste grande tempo.
Teu hálito move meu mundo.

São Paulo, 5.6.2012
Somos como dois planetas cuja natureza e órbitas distintas se atraem.
Somos este universo que nos encaminha para nossos braços,
esta eterna poeira cósmica, esta quântica e incerta vontade de viver.

5.6.2012

Tuesday, June 05, 2012

Ainda bem

Ainda bem que não sou uma pessoa só,
para estar com as tantas pessoas que tu és.
Ainda bem que nisso somos abençoados,
a última mágica divina, o que nos conduz ao nosso abraço.
Ainda bem que não me preparei para nada:
apenas segui os signos da vida para nos recebermos,
e que Deus preze e guarde nossa quase infantil ousadia.
Ainda bem que tão por acaso você chegou em minha vida,
uma quieta sinfonia em meio ao alarido do concerto maior onde existimos.
Ainda bem que você existe, porque eu também.
Nenúfares pairam amarelos sobre os lagos,
rosas amarelas brotam em todos os jardins,
e nós aprendemos a escrever esta terna música do amanhã.

São Paulo, 16.5. 2012

Sunday, June 03, 2012

Meu inesperado e benfazejo furacão:
você me ensinou a viver com estruturas semoventes,
sem nada de chão embaixo dos meus pés,
como se fosse mesmo vivendo de brisa,
a brisa mesma que você assopra vinda de seu alto mar.
Você me ensinou a enfunar as velas para Ítaca, enfim.
Você me ensinou o partir e o retornar
porque afinal meu coração tem uma morada.

3.6.2012

Wednesday, May 30, 2012

Aspirina esparadrado não cura ferida nenhuma.
emplastro não alivia dor.
aspirina sem prescrição é veneno.
meu coração doi sem remédio.

19.1.2012
As palavras fogem de mim: caçarola, penico, mar, sombra, aeroporto,
desmazelo, princípio e fim,
nada combina com o que o meu coração quer desdizer.
Alfinete, predregulho, iluminura, tangência, exatidão,
tudo tão longe e nada se junta.
Estou aqui desnorteado, bússola traída, ímã invisível,
e os sentidos giram em todos os sentidos.

19.1.2012
A luz que você joga sobre mim
bate de banda no outono
tingindo tudo de dourado.
A luz que vem de você não conhece fronteiras nas nuvens
e sempre chega de qualquer maneira,
de alguns destes tantos modos seus de anunciar a vida.
A luz que você toda reflete traz calor tanto no verão,
e a promessa do ar mágico e morno dos invernos de nosso futuro ninho.
A luz que você foca, dispersa, concentra e tangencia, meu amor,
há de fazer brotar nossas sementes todas.

São Paulo, 20.5.2012