Sunday, February 11, 2007

Imitação da Alegria

Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.

Buscas sentidos para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente,
mesmo nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.
(Salvatore Quasimodo)

Wednesday, January 31, 2007


O último poema


Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Manuel Bandeira)

Saturday, January 27, 2007

Nem toda arte é uma tela

Nem toda arte é uma tela.
Nem toda tela é branca.
Tudo que te dedico é arte.
Tardes noites de lençóis lívidos,
Nem sequer vividos.


Zé Eduardo
Brasília 27/01/2007

Friday, January 26, 2007

Imaginemos

Imaginemos que tua sede está longe de saciar.
Que eu me tornei uma água desejada, ainda que agora indigesta.
Mas que continuarei correndo, como cachoeiras, quedas d’água, meras gotas, colírio a semprer querer banhar teus olhos.
E continuarei brotando no fluxo espesso do gozo,
Te banhando toda de branco.
Imaginemos que tua pele possa receber meu toque e meu despejar de amor sobre ti.
Ou fingimos que nada imaginamos nestes lençóis sedentos de amor.

Zé Eduardo
Brasília 26/01/2007

O agora não é mais tempo

O agora não é mais tempo.
O tempo quedou suspenso em tuas coxas, teu hálito, esguio dorso.
Ficou emaranhado no agridoce do teu sexo,
Nós intricados demais a desatar.
O tempo, produtor de ruína e vida,
Instalou-se em teus cabelos grossos, insubordinados,
Fixou-se no maravilhamento de tuas ancas,
Teu andar nua pelo quarto imerso em nossos cheiros.
(E como era encantador teu caminhar alto e soberbo.)
O tempo do amor, não o tempo do cotidiano,
O tempo eterno que compõem tuas curvas,
O tempo de um segundo tornado horas e dias e existir
De um beijo roubado na janela.
O tempo da perda, o tempo que não se aceita,
Relógio de areia a marcar a duração de um jogo interrompido por misteriosa intempérie.
Raios de céu turvo, luz que assombra nuvens,
Deuses tantos que resolveste esquecer,
Insetos pequenos que se jogam ao suicídio em um copo cheio de nada.

Zé Eduardo
Brasília
26/01/2007

Tuesday, January 23, 2007

Ser poeta é uma merda

Ser poeta é uma merda,
só faz a gente sofrer.
As musas vão e vêm
Como se a gente fosse a porta giratória
De um hotel onde eventualmente se pernoita,
E deixam em vermelho incadescente seus registros na portaria.
Se enredam na insubstância de nossas palavras
E nós viramos léxico arrumadinho, estrambótico, romântico,
Para o deleite dos álbuns de recordações.
Deitados quietos nos escuros
Enquanto elas, amadas, vestidas dos pitéus finos de apaixonados adjetivos,
Despem-se em leitos alhures,
Sangrando as carnes e quebrando os ossos de que elas não supõem
Que somos também feitos.
Ser poeta é uma merda,
Preferiria a calma indiferença de uma concha, um toco, um taco de assoalho.
Mas não adianta.
Ser poeta é uma merda.

Zé Eduardo
Brasília
23/01/2007

A teia do tempo

A teia do tempo

Tece, tecedeira, estes fios que um dia a vida há de cortar.
Fia em seu tear as tramas que um dia jazerão esquecidas num sagrado e oculto sótão.
Escolhe com rigor as cores: violeta, para os mortos; amarelo, para aqueles que esperam,
Vermelho para o baile, a morte – o cinza, para depois de tudo.
Tece o chale que a envolverá na noite,
Aquietando cabelos em desespero.
Tire de seu corpo estes tantos panos úmidos de desconforto,
Descubra-se para a lua que tarda.
Cubra teus peitos dos sangüíneos tecidos da paixão
Mas não deixe que a vejam assim, bifurcada.
Ore por seu ofício, a vida.

Zé Eduardo
Brasília
19/1/2007

Desterro

Quando seu rosto não mais trafegar em meus sonhos,
Aparição da mais doce fantasia,
Quando suas pernas se desentrelaçarem de minhas memórias,
A libertar as imagens dos dias e das noites que amamos juntos,
Quando seus densos olhos deste denso verde não mais iluminarem madrugadas
E se fecharem para mim como se fecham comportas, represando o desejo que jorra, água pura,
Quando tua boca perder o tom do meu encanto,
A me embalar e estremecer em sua musica,
Quando os ventos baterem as pesadas portas abertas do meu querer,
E eu me encontrar vazio, só, nu diante da descoberta,
Quando seus pés não mais sugerirem carinhos,
Toque das minhas mãos em tua úmida intimidade,
Quando a chuva enfim lavar tudo que escrevi na areia do tempo,
As palavras solenes, incorruptíveis,
Aí terei te esquecido.
Ai terei depositado a espada que retirei da pedra como eleito
Num forçado retiro da batalha cujas todas frentes não conheci jamais.
Você aparecerá com seus cabelos banhados nos rios
A beleza deslizando a cada gota que escorre de seu corpo,
Surgirá como desconhecida a um coração desbotado pelo tempo,
Mergulhará de novo das profundezas de onde veio
E afogará minha dor, meus mitos, meu amoroso destempero, minha graça,
Apagará a luz que apagada se encontrava pelo olvido,
Desligará a energia que me ligava a você
E fazia desfilar as suas magias, uma a uma,
Sucessão de retratos de um álbum guardado na gaveta.

...

Por enquanto, quieto em meu desterro,
Te amo.

Zé Eduardo

Brasília, 18/1/2007

Comuns

Você é uma mulher comum, eu sou um homem comum.
Somos.
Agora há pouco vi um rinoceronte nas nuvens,
prestes a se dissolver.
O vento dispersa tudo.

Zé Eduardo
20/0/2007
Brasilia

Monday, January 08, 2007

Smile

(Charlie Chaplin)

Smile though your heart is aching
Smile even though it's breaking
When there are clouds in the sky, you'll get by
If you smile through your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You'll see the sun come shining through for you

And light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That's the time you must keep on trying
Smile, what's the use of crying?
You'll find that life is still worthwhile
If you just smile

Saturday, January 06, 2007

Friday, January 05, 2007

A Felicidade

Quem abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva
Tudo acontece pela primeira vez.
Avistei uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas o que posso fazer com uma palavra e uma mitologia...
As árvores dão-me um pouco de medo. São tão formosas.
Os mansos animais se aproximam para que eu lhes diga seu nome.
Os livros da biblioteca não tem letras. Quando os abro, surgem.
Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.
Quem acende um fósforo no escuro está inventando o fogo.
No espelho há outro à espreita.
Quem olha o mar vê a Inglaterra.
Quem profere um verso de Liliencron já entrou na batalha.
Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago.
Sonhei a espada e a balança.
Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas dois que se entregam.
Quem desce a um rio desce ao Ganges.
Quem olha um relógio de areia vê a dissolução de um império.
Quem joga com um punhal pressagia a morte de César.
Quem dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge, que acabam de lavrar.
Não há nada tão antigo sob o sol.
Tudo acontece pela primeira vez, porém de modo eterno.
Quem lê minhas palavras está inventando-as.

(Jorge Luis Borges)

Thursday, January 04, 2007

Yesterdays

Siga


(Fernando Lobo/Hélio Guimarães)

Siga
Vá seguindo
O seu caminho

Escolha o rumo
Que quiser
Quem sabe do mundo
Sou eu
Vagabundo
Das estradas e do tempo
Eu sei

Passa
O tempo passa
A vida passa
Eu já não sei mais
O que é que eu sou
Quam sabia do mundo
Era eu
Vagabundo
Das estradas e do tempo
Cansei

Friday, December 29, 2006

Vapor Barato




Vapor Barato
(Jards Macalé e Wally Salomão)

Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general cheio de anéis
Eu vou descendo por todas as ruas
Eu vou tomar aquele velho navio
Eu vou tomar aquele velho navio
Aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não importa,....e não importa Não!

Oh minha honey
Baby, baby, baby.......Honey, Baby

Sim eu estou cansado mas não pra dizer
Que eu estou indo embora
Talvez eu volte um dia..eu volto, quem sabe
Mas eu preciso
Eu preciso esquecê-la
A minha grande a minha pequena
A minha imensa obsessão
A minha grande obsessão

Oh minha honey
Baby, baby, baby.......Honey, Baby

Tuesday, December 26, 2006

Casida del llanto

He cerrado mi balcón
por que no quiero oír el llanto
pero por detrás de los grises muros
no se oye otra cosa que el llanto.

Hay muy pocos ángeles que canten,
hay muy pocos perros que ladren,
mis violines caben en la palma de mi mano.

Pero el llanto es un perro inmenso,
el llanto es un ángel inmenso,
el llanto es un violín inmenso,
las lágrimas amordazan al viento,
no se oye otra cosa que el llanto.


(Federico Garcia Lorca)

Friday, December 22, 2006

Cloudy days, bright days

Danza de murte – fragmento

2
La noche, la calle, el farol, la farmácia,
Una luz mortecina y absurda.
Aunque vivieras outro cuarto de siglo
Todo seguirá igual. No hay salida.

Morirás, volverás a comenzarlo todo de nuevo
Y todo se repetirá como antes.
La noche, las ondulaciones frias del canal,
La farmácia, la calle, el farol.

(Alexander Blok, 1912)

Wednesday, December 20, 2006

Duas reflexões sobre o passado recente

ANJO EXTERMINADO
(Jards Macalé/Waly Salomão)

Quando você passa três, quatro dias desaparecida
Me queimo num fogo louco de paixão
Ou você faz de mim alto-relevo no seu coração
Ou não vou mais topar ficar deitado
Um moço solitário, poeta benquisto
Até você tornar doente, cansada, acabada
Das curtições otárias
Quando você passa três, quatro dias desaparecida
Subo desço, desço subo escadas
Apago acendo a luz do quarto
Fecho abro janelas sobre a Guanabara
Já não penso mais em nada
Meu olhar vara vasculha a madrugada
Anjo exterminado
Olho o relógio iluminado anúncios luminosos
Luzes da cidade, estrelas do céu
Me queimo num fogo louco de paixão
Anjo abatido
Planejo lhe abandonar
Pois sei que você acaba sempre por tornar ao meu lar
Mesmo porque não tem outro lugar onde parar



MAL SECRETO
)Jards Macalé/Wally Salomão)


Não choro
Meu segredo é que sou um rapaz esforçado
Fico parado, calado, quieto
Não corro, não choro, não converso
Massacro meu medo, mascaro minha dor
Já sei sofrer
Não preciso de gente que me oriente

Se você me pergunta: "Como vai?"
Respondo sempre igual: "Tudo legal!"
Mas quando você vai embora
Morro meu rosto no espelho
Minha alma chora

Vejo o Rio de Janeiro
O morro não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho
Não fico parado, não fico calado, não fico quieto
Eu choro, converso
E tudo o mais jogo num verso
Intitulado mal secreto

Tuesday, December 19, 2006

Torta Torta

Às vezes te ofereço uma torta torta na vasilha
desmanchada além de sua estranheza.
Às vezes minha impropriedade
empilha meu cansaço ao seu.
Às vezes, toco tambores
quando o que se pede
é tua sincera sonoridade de oboé.
Às vezes falho, como falhas provocam terremotos.
Eu sou assim, mortal como uma flecha,
e transitória, cujo alvo é o nada.

Eu sou a rota sola
de um sapato roto e furado
em seu caminhar de desatino.
Eu sou aquele que persegue
inconcretudes marmóreas,
nuvens nunca evanescentes,
destino de alvoroço.
Eu sou o alvoroço
e comigo vorazmente trago tudo.
Eu não sou a luz, a verdade e a vida.
Eu não sou promessa de nada.
Eu estou chegando à conclusão de que
há sempre escuros olhares por trás do escuro.
……
Eu faço uma prece como quem compra cenouras numa feira.
Eu quero que o gosto não cubra outro gosto
e que tudo na língua seja novo:
paladar, primor, palavra, primavera.

(zé eduardo)

Sunday, December 17, 2006

HURT

I hurt myself today
to see if I still feel
I focus on the pain
the only thing that's real
the needle tears a hole
the old familiar sting
try to kill it all away
but I remember everything
what have I become?
my sweetest friend
everyone I know
goes away in the end
and you could have it all
my empire of dirt

I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
upon my liar's chair
full of broken thoughts
I cannot repair
beneath the stains of time
the feelings disappear
you are someone else
I am still right here

what have I become?
my sweetest friend
everyone I know
goes away in the end
and you could have it all
my empire of dirt

I will let you down
I will make you hurt

if I could start again
a million miles away
I would keep myself
I would find a way

Saturday, December 09, 2006

Infância








Como se espíritos fossem
(e hoje espíritos são)
mamãe e seu pai pairam no ar
ao som da vitrola que martela, sincopadamente,
a valsa do imperador de uma distante Áustria.
E meu sangue borbulha em suas origens
e meu coração dança em três por quatro
como um pequeno instantanêo do passado.
Lá estou eu, menino, sempre imerso em solidão
(que parece ter se instaurado em mim como destino).
A tia serve o ponche na antiga jarra
(única testemunha de duvidoso fausto),
pia batismal cristã, dionisíaca,
o sincretismo da pipoca e do prazer
da criança que pode ir dormir muito tarde
que alguém cuidará de que haja amanhã para amanhecer.
Era tudo tão singelo,
mesmo os homens atravessando a madrugada no baralho
enquanto as mulheres desfiavam entre gargalhadas suas mazelas,
tudo tão doce como fios de ovos cobiçados antes da ceia.
Hoje não há mais amanhã.
Hoje ninguém garante o sofá onde dormi ouvindo as vozes evanescendo como mágica.
Hoje estou taciturno como a chuva que respinga o dia todo em um lamento.
Hoje eu lamento que haja a chuva onde antes havia, de manhãzinha, a garoa.
O que eu aprendo, hoje, é mais uma apreensão que o aprendido.
O bate-estacas abala fundações de uma alma que nunca será terminada.

Praia do Engenho, 15 de Julho de 2000