Wednesday, May 30, 2012

A luz que você joga sobre mim
bate de banda no outono
tingindo tudo de dourado.
A luz que vem de você não conhece fronteiras nas nuvens
e sempre chega de qualquer maneira,
de alguns destes tantos modos seus de anunciar a vida.
A luz que você toda reflete traz calor tanto no verão,
e a promessa do ar mágico e morno dos invernos de nosso futuro ninho.
A luz que você foca, dispersa, concentra e tangencia, meu amor,
há de fazer brotar nossas sementes todas.

São Paulo, 20.5.2012
Ainda bem

Ainda bem que não sou uma pessoa só,
para estar com as tantas pessoas que tu és.
Ainda bem que nisso somos abençoados, a última mágica divina,
o que nos conduz ao nosso abraço.
Apenas segui os signos da vida para nos recebermos,
e que Deus preze e guarde nossa quase infantil ousadia.
Ainda bem que tão por acaso você chegou em minha vida,
 uma quieta sinfonia em meio ao alarido
do concerto maior onde existimos.
Ainda bem que você existe, porque eu também.
 Nenúfares pairam amarelos sobre os lagos,
rosas amarelas brotam em todos os jardins,
e nós aprendemos a escrever esta terna música do amanhã.

São Paulo, 16.5. 2012

Sunday, May 20, 2012

Nada que eu me lembre, examinando as fatias de meu coração no tempo, que passasse remotamente perto do que eu sinto por você. Nada, nem ninguém, que houvesse me feito assim feliz, a enxergar a vida como um eterno céu róseo de outono, onde cores aquecem, onde a pálida luz nos ilumina sem fanfarras, festivais, sem exuberância (e onde, não obstante, há este tanto desejo tão presente). E é por adivinhar você assim, como as cores inesgotáveis de seus cabelos, é por ouvir todas as duas desencontradas vozes que eu amo você assim sem medida: não há centímetro, polegada, metro, acre, hectare que lhe meça, e você está em cada arfar de meu respiro, em cada passo de meus passos, em todas as vidas da minha vida. São Paulo, 19/5/2012
Se você fosse um planeta seu nome seria regaço, orvalho da manhã a resgatar o verde, sereno da tardinha convidando a noite. Se você fosse uma hora, seria elas todas, anunciadas por tua luz e teu escuro. Sopra uma brisa no mundo, e ela vem de você. São Paulo, 30 de abril de 2012

Tuesday, April 17, 2012

Outono é aqui, e do outro lado do mundo é primavera.
O tempo não esquece.
Misturar as estações sempre resulta em flores natimortas.

Friday, April 13, 2012

Os bichos os desenhos animados

O toque de sua pele me lembra dos bichos dos desenhos animados,
e eu nunca vou saber porque.
O beijo de sua boca me recorda alguma infância perdida tarde em uma praia distante,
e eu não sei de onde isso vem.
Você toda me remete apenas a você,
eu te amo e te espero para juntos fecharmos uma conta e abrir
sempre os balcões de onde nos debruçaremos a olhar a vida.

São Paulo, 7 abril de 2012

A doçura das desintrincadas tardes

A doçura destas desintrincadas tardes quentes
Quando a araponga bate ferro na modorra
E mosquitos zunem tontos, pasmos, inadequados no calor inesperado de abril,
E as roupas dormem sufocadas nos armários feito múmias,
Sao estas horas de versos disparatados nas quais você surge, um desengonço,
Caminhando trôpega com tuas pernas magras
Pisando impiedosa em meu coração.
Benvinda visão trêfega turva cristalina trovão rugindo em céu de brigadeiro.
Benvinda palpável imaterial realidade,
Benvinda aa minha vida cansada de tangencias.

SP, 10 de abril de 2012

Para sempre

Sentir a tua pele alva
com o toque de meus dedos trêmulos,
misturar todos os sentidos,
te ouvir onde te vejo, te apalpar onde te cheiro,
te lamber onde te ouço.

São Paulo, 13 de abril de 2012

Monday, April 02, 2012

Tua voz

Tua voz inaugura meu dia já no começo da tarde,
tudo recomeça com esta luz que nuvem nenhuma mais bloqueia
e teu sorriso invade a sala onde logo tudo vai se chamar nosso,
a casa onde todos os teus cheiros vão pairar,
o espaço onde ensaiaremos dia a dia nossas danças,
o aprender eterno e amoroso dos gestos que se chamam vida.

São Paulo, 2 de abril de 2012
Porque inauguras esse inusitado outono,
eu te amo.
Porque deitas suas folhas sobre minha relva,
sussurras em meus ouvidos sempre tão apaixonadamente,
te quero.
Porque o frio se aproxima, mas nós sabemos passar as estações,
porque elas se misturam como vinhas
que produzem os melhores dos melhores sonhos,
eu te desejo.

16.3.2012
Agora que o tempo,
Ainda que ainda suspenso,
Começa a ditar esta simultânea marcha
de nossas vidas ambas;
Agora que adivinhamos
A hora vizinha de vivermos juntos,
Se juntam dentro de mim
as palavras todas que eu sempre quero tanto te dizer:
Janela, beiral, terra, chão batido, goiabeira,
pés descalços dedos teus pisando o quintal onde moram os desejos,
Pomar, frutas, tua rubra intimidade, sementes a plantar em teu regaço,
Espaço meu recôndito onde habito,
Teu olhar amplo para o céu ,
as mãos compridas compondo redondilhas,
Embrulhando com barbante tuas cantigas a enviar para mim pelos correios,
Tuas palavras que atravessam distancias toda noite,
A sonoridade inaudita de tuas vontades,
Caprichos de menina, conspícuos olhos de mulher,
Vem me banhar com tuas águas mornas,
Vem deitar teu esguio corpo junto ao meu,
Vem me ouvir falar em teu ouvido que te amo.

SP 28.3.2012

A vida sem você

Tiraram de mim meus piões, os fios de minhas pipas,

a caixinha de meus tocos de giz colorido
com os quais eu desenhava a amarelinha

para pular até o seu céu.

Me botaram sentado olhando pro cantinho da parede,

Eu que só faço te amar.

A vida longe de você nao presta.

março 2012

Monday, February 27, 2012

A Construção da Intimidade

Eu te dou: minhas bolinhas de gude,
a verde com uma lasca de banda,
a amarela rajada como teu olho (que nao sei se é o esquerdo ou o direito).
Você me dá: tuas caixinhas com
tuas cartas de amor,
teus santos todos,
os pedaços de chocolate que não estiverem debaixo de tua cama,
os retratos de teus cavalos,
os cavaleiros de toda a Távola Redonda,
uma jangada de papel para se chegar a bom termo a Ítaca.
Eu te dou: minhas noites insones, meus espantos,
o bauzinho com o camafeu do rosto que não conheço,
um prendedor de gravata de meu pai
(porque eu também sei ser sisudo),
o menino que olha de dentro da foto com as mãos pequenas postas sobre a mesa,
o globo do mundo e a lousa atrás com os meus saberes todos, os olhos que sobre ti pousam bonitos e alumbrados.
Você me dá: minha ilha onde no momento chove, meu silêncio e minha solidão,
tua canequinha de folha de flandres de tua infância descalça num canto de Pernambuco,
teu canivete para descascar as mangas,
as partículas brilhantes do solo onde pisas com teus dedos finos e espalhados.
Eu te dou: a tramela da porta para que nunca ninguém mais a tranque,
as estrelinhas de botar no teto que eu comprei um dia para até então dormirem sob o tempo nublado,
meu sopro que revela o céu no qual teu hálito habita.
Você me dá: o troquinho do sorvete,
as ninharias pequenas e as grandes,
os estalinhos de São João,
o luzir, as tempestades das quais tu tens tanto medo, os raios de tudo que em ti reverbera.
Eu te dou: todo o mato que em mim cresce sem controle,
meu desajuízo, minha intermitência e minha perenidade,
minhas águas que lavam todos os pelos que contém seu corpo,
meus sonhos que não conto para ninguem,
mas só para você eu conto porque moram em meus olhos que tu aquietas,
eu enfim feliz,
eu finalmente repousado.

Salvador, 19 de fevereiro de 2012

A Sagração da Primavera

Estas sementes deitadas em nossos lençóis,
estes dias em que tudo começou para não mais terminar,
o que brotou, floresceu, morreu, tornou a brotar de novo,
neste doce contínuo de teu ser,
esta trégua que tu impões ao tempo,
o ritmo desta determinada marcha
da seiva com que tu cobres estas nossas vidas de nós inesgotáveis,
os espelhos que tu crias na colheita do orvalho em tuas folhas,
a noite de pirilampos que tu acendes
para que trilhem iluminadas nossas histórias todas,
caules, troncos rodando rio abaixo,
pétalas que olham das margens de soslaio, coradas de seus recatos,
eu te abraço, te beijo, te amo e te fecundo,
as nuvens se desmancham sobre o solo,
e nossa paixão são os frutos verdes, os frutos maduros, os frutos serenos, o que haverá de dar a comer a quem irá plantar
neste eterno polinizar do mundo.

Salvador, 21 de fevereiro de 2012

Todos os dias

Todos os dias
você chega em minha vida e diz:
me ame.
Eu te amo.

4.2.2012

Louise chega em minha vida

Estou aprendendo a dar continente
pra esta tua caótica e serelepe radiância.
Estou aprendendo a toda noite abraçar o som de tua voz.
Estou aprendendo a ver você chegar devagar,
você que chega sempre tão súbita,
loiro tsunami de pernas mais altas do que as ondas.

2.2.2012

Wednesday, February 01, 2012

A mulher beduína

A mulher beduína vaga pelos desertos épicos da Síria.
A mulher beduína trafega pela poeira do meu coração.
Ela é diversa em tudo - seus olhos de heterocromia,
um da cor do damasco, outro verde como os oásis que me proporciona,
criam mundos inúmeros, a mim acostumado a óticas singulares, mas subitamente tomado de surpresa por seus encantos muitos, múltiplos e inenarráveis.
Ela não é uma mulher só, a beduína. Ela traz em si a alegre confusão do souk e a herança dos sabores e cheiros calabreses dos que cruzaram seu caminho em uma mediterrânea troca de sangues, a loira baiana que samba nos blocos, olhando o mundo de sua apreciável altura.
Mulheres beduínas não deixam nunca suas tendas, mas não esta mulher.
Ela se aventura, e em suas peraltices, traquinagens, e seu jogo de bola na rua com seus pés desmesurados provoca fenômenos sísmicos - por onde ela passa a terra treme.
A minha terra treme quando ela passa.
O meu coração nem sabe o que dizer, e ainda bem que não tem de dizer nada.
A mulher beduína é quem enfim eu quero - com seu cheiro, gosto e textura de manga em minha boca, com seu aroma de cânfora, hortelã, manjericão.
A mulher beduína tem propriedade em tudo que fala, e como fala a mulher beduína - fala de mundos reais, paralelos, transversos, e tudo nela é o mesmo mundo.

30.1.2012

Continente

Estou aprendendo a dar continente
pra esta tua caótica e serelepe radiância.
Estou aprendendo a toda noite abraçar o som de tua voz.
Estou aprendendo a ver você chegar devagar,
você que chega sempre tão súbita,
loiro tsunami de pernas mais altas do que as ondas.

2.1.2012

Wednesday, June 15, 2011

Sargaços

Tripulações, corpos putrefatos,
viajantes de rotas insensatas,
o destino que o adernar soçobra,
florescências de algas em luzes mal tramadas
tudo que em torno se poderia chamar saudade.

14/6/2011

Wednesday, May 18, 2011

Umbra Umbela

Debaixo de teu guarda-sombras estão:
Borrascas, tempestades,
Corpo cheirando após a chuva,
Uma nota de um real amarfanhada onde alguém escreveu:
Que Deus me proteja, em quase incompreensível garatuja;
Um luar que range como se estivesse enferrujado
de tanto ficar parado no mesmo lugar,
A fertilidade de teu ventre,
Pirilampos tingindo todas as tuas noites mal dormidas,
Cupins a desesculpir teu leito,
As ilusões perdidas, os sísmicos abalos
que as fraturas de teu solo provocam,
O hálito neutro da manhã tornado vento
E que o braseiro de teus lábios traduz no mais
desejado beijo de uma vida;
fotografias desbotadas, notas dissonantes, harmonias tortas
a se compor disparatadas e soar como um outono,
folhas a cair milimetricamente ao pé dos plátanos
(que nem sequer existem fora dos romances),
florilégios de uma corte decadente e distante e perdida
que olhos num esgar decifram em hieroglifos,
sentidos múltiplos da mesma escrita;
mesas de bares, beiras de lagos e afetos,
arquiteturas que fazem olhar os céus
onde as constelações se descortinam a não nos revelar nada;
dedos finos, longos, a se incrustar em minhas costas,
em suas doces trilhas indeléveis;
arfar que se desconhecia em noites surpresas
da magia de gozos indecifráveis;
murmúrios, sussurros, palavras ditas que teimam
em jamais se repetir, inclusão de auroras, membros dormentes, peixes olhando paredes de aquários acostumados a nada transpor,
desenhos animados, fantasias, balões pisados no fim da festa,
comemoração que nunca finda, bolos dormindo nas geladeiras para o café da manhã que não virá,
eu tremeluzo, me inflo e abundo
nesta animação tanta e inúmera que tu és.


Zé Eduardo

29/9/2007