Saturday, June 30, 2007

Eu te amo (2)



















Só ouço a percussão do surdo
E teus pés pequenos na arena,
Concreto a se mover sob teu corpo,
Ritmo safado de melodiosas ancas.
Me entranho em teu mover o mundo
Do espaço em que nos cercam as janelas,
Redemoinhos que tragam meu corpo
Solto no urdir de teu desejo,
Teu corpo solto no urdir do meu.
Meus sentidos todos se revestem
Desta fragrância única de mel,
O cheiro ineludível de teu sexo.

Zé Eduardo
30/6/2007

Thursday, June 28, 2007

Poema

Tente lapidar um mínimo pedaço de pedra
do asfalto que se desprende da rua.
Tente jogar bola no topo do edifício
sem deixar que ela despenque seca
na avenida abaixo.
Melhor, tente investigar do que são feitos
os passos que trafegam avenidas.
Continue tentando.
A vida nem sempre trata
de fazer sentido.

Zé Eduardo, 28/6/2007

O Estado das Coisas
















Eu ando mais cascudo e duro
como certos calcanhares, ainda
que de pés sempre bonitos.
Debaixo de tantas
camadas de pele
está minha pele verdadeira
que esta surrada epiderme
esconde dos olhos do mundo
(mas não dos meus).
Nunca estive tanto como agora
transiente, este estado de
fluxo de permanente
mênstruo, coisa de sangue feita.
(E de sangue quente e espesso,
como se jorrasse de pescoços
de dragões).
Nada há em mim para o noticiário.
O traje que ora envergo
me torna quase invisível
e o que se vê de mim
são meus olhos confundidos
com panos.
(Eu apreendi de você
essas manias de ser humano.)
A lua me toca qual uma
hóstia que minha garganta
crestada não engole.
Eu apenas ando engolindo
tudo que não está mais no céu
(eu inclusive).
E tudo que não está no céu
tem de estar forçosamente sobre
esta terra em que somos paridos
uma vez que o inferno
positivamente não existe.
A jornada se sabe onde começa
e mesmo quanto termina.
Tudo começa e termina na
morte, antepassados me acenam
em sonhos sonhados e decifráveis,
minha mãe que vem tocar
meu coração a garantir que
sim, bate e funciona,
aparelho renascido
nesta fábrica de tempo.
(Não há mal que não termine,
e bem que nunca acabe,
e isso é quase tudo sobre estarmos
a pisar o mundo,
buracos de precárias
estradas de terra onde
as valetas distraem a nós
que nos pensamos condutores).
E também nada é vão,
nem triste ou perdido, mas
apenas.

Zé Eduardo, 28/6/2007

Friday, June 22, 2007

O sofá da sala eterna


















A moça sai do bar
E discretamente chora.
E o sal da água percorre sua face
E deságua num guardanapo improvisado como lenço,
Lenço que ninguém mais usa muito embora
Pessoas teimem em chorar perdas,
O que poderia ter sido e não foi,
Conversas de alma e travesseiros dos quais a vida resolveu
não fazer parte.
E a vida não pode nunca ficar perto de tudo,
Fora uma incerta periodicidade
das nossas eleições de afetos,
muito mais que o pedaço de papel
jogado em uma urna.
E amamos pessoas, e não seus projetos de vida,
Ainda que a carne se confunda à causa
(Esperto muito mais é o coração).

........

E teu sexo pra sempre desnudo
no sofá da extrema e eterna sala.

SP 22/6/2007

Wednesday, June 20, 2007

Nunca



















Impossível, não. Altamente improvável,
essa mania de matemáticos de ver o mundo.
Impossível, sim. Quero dizer, nunca.
Como lutar com o poema que não vem.
Não é dia, não é hoje, tudo foge de valer a pena
e nada se escreve, palavras vazam deste lugar nenhum,
purgatório onde os sentimentos se condenam a esperar,
inferno abaixo, nuvens toldam acima o paraíso,
nada ferve, nada enregela
nesta tepidez do coração na entropia.
Nem há ondas nesta placidez de lago que treme apenas quando a pedra racha a superfície,
espelho d'água a rebater céus excessivos,
máquinas mortas em obras paradas,
tijolos inúteis em paredes mudas,
parcelas vencidas no carnê atirado ao lixo,
marfim dos elefantes abatidos
nas teclas dos pianos fechados
cobertos por tecidos desbotados
onde o pó se assenta neste não mais varrer,
manchas que se espalham qual lesmas nos muros
que viram um dia um florescer de cores
fossem ainda palmas e cravos de defunto,
mesmo assim flores, desgarradas e crepusculares,
muros cinzas como os viúvos da vida,
seguros vencidos à espreita do sinistro.

...

Um punhal corta impune o tecido da noite.

(zé eduardo)

Saturday, June 16, 2007

I Wanna Go Home

I’never seen you at the beach.
I’ve never seen your hair dripping salt water.
Outside of that, there is so much I miss about you,
Things that far outnumber what I could in a poem recall.
Nights at the terrace sharing stars.
You dressing gloves and wool socks
and still feeling cold under blankets
and nothing I could do to warm you.
We getting home drunk from some crazy night
And making love like there was nothing else
We would ever like to do. And we didn’t .
The blinking of your big eyes when
You’d suddenly wake up looking at me
Like I was first thing in your morning
(And morning could be night and
time would stretch itself as we did
with our bodies.)
The way you did walk, weightless,
From bed to bathroom,
Your slender figure cruising barefoot the tiles
While I would look at you always amazed,
Always,like I would today, ever for the first time.
So much more I would like to tell
But I’m just getting home
Though I don’t know quite where home is.
Home could be where you are.
Home could be you.
But it isn’t.

(zé eduardo)

Monday, June 11, 2007

Eu te amo

Eu te amo com a contrição de quem ora
em uma catedral revestida de silêncio
cujos vitrais jogam sobre mim a luz
que permanece quando parto.
Eu te amo com a propriedade dos que sabem
que nada podem possuir.
Eu te amo como quem te entende e não te entende.
Eu amo o território que me trazes,
bela e aturdida manhã, mesa sem pães mas com o alimento
de nossa fala amorosa.
(Tua pele é a pedra onde as armas se afiam,
testam o corte nas entranhas nossas.)
Eu te amo como quem sai à luz
vindo do fundo de uma caverna.
Eu me cego do brilho com olhos desprotegidos -
de que outra maneira te olhar assim tão de repente?
Eu fecho os olhos forte como menino depois do pesadelo,
e ainda tua imagem permanece umedecendo minhas retinas.
Eu te amo antes e depois de tudo isso,
com os ecos dos cânticos que chegam a mim em
forma de urbana algaravia.
Você é paredes, grafitti, todas as intervenções de todos os artistas,
você é a mulher que vai pintando seu caminho como cães mijam nos postes.
É você quem espalha seu cheiro, mas espalha pra si mesma
como uma capa brocada tecida em seu mais extremo distrair.
É em você que coisas se fazem por si mesmas,
mas não sem ter antes experimentado seus aromas como guias.
Você é a mulher do presente.

Eu te amo assim, eu amo teu fluxo incontível.

Eu te amo assim, peremptoriamente.

(zé eduardo)

Questões, de noite

Posso acreditar.
Ou devo.
Ladrilho trincado
aranha imóvel na parede
traço espalhado sabendo a confusão.
Aridez de sal
desértica amplitude
tosse seca cacto flor.
Fechado frio em cobertores o poeta escreve
ansioso e horizontal.

Noite maquinaria aberta
desassossego.

(Zé Eduardo)

Sunday, June 10, 2007

Left and leaving



















While my Guitar Gently Weeps

I look at you all
See the love there that's sleeping
While my guitar gently weeps
I look at the floor
And I see it needs sweeping
Still my guitar gently weeps.

I don't know why
nobody told you
how to unfold your love.
I don't know how
someone controlled you
they bought and sold you.

I look at the world
and I notice it's turning
while my guitar gently weeps.
With every mistake
we must surely be learning
still my guitar gently weeps.

I don't know how
you were diverted
you were perverted too.
I don't know how
you were inverted
no one alerted you.

I look from the wings
at the play you're staging
while my guitar gently weeps.
'Cause I'm sitting here
doing nothing but aging
still my guitar gently weeps.

(George Harrison)

Monday, June 04, 2007

Agapantos


















Um homem entrará por esta casa.
A mesa estará posta
de ventos e sinos.
Colará o ouvido em meu peito
onde trafegam minhas antigas estradas, o rumor surdo dos mortos.
Pegará em minhas mãos e me falará
de um campo imenso semeado
de agapantos.
Escutará a seda do meu corpo,
a sede da minha alma,
a lã dos meus desejos.
Então o tempo encherá o quarto de areia.


(Roseana Murray)

Saturday, May 26, 2007

Flowers



















My heart is a boulevard in spring.
My heart is a cemetery in spring.
Both covered with flowers.
They are everywhere you look,
flowers to say goodbye to
(they are the ones with thorns
and the ones with the sweetest smell,
the most beautiful your eyes will ever see).
That's why we love them, flowers.
And we suffer when they die
(even though they don't).
We watch them fade,
but we only think they do
(we have to, don't we, without them?).
They live their own lives,
and they will always blossom
in spring, flowers.
And we will forever love them,
flowers,
red petals soft with the
moist of morning,
flowers so wild
no garden should possess.


(zé eduardo, sp, 26/5/2007)

Wednesday, May 23, 2007

I Shall Die









I shall die because
the gods gave me too much,
they maybe gave me too much to handle.
I shall be happy ever after,
because that's what you do after you die.

.....

When she was four,
my daughter said that what happens when you die
is that you vomit.
You just simply throw up,
it's your soul going out for a ride.
Another one.

....

At the door you won't find written
emergency
Not even exit.
Just open it.
Outside there are flowers
but you don't have to go there to find them.

........

So be comfortable with what you have,
do not worry with what you've left behind.
Behind does not exist.
Life does.


(zé eduardo, são paulo, 22/5/2007)

Sunday, May 20, 2007

Desta Janela

Desta janela
tudo é a visão gótica e estreita.
Desta viela
onde tudo se torce em sumo
e a vida finalmente desabafa,
contemplo o nada da negritude tua,
o pálido forjar de ruas escuras,
o desquietamento mesmo
das tuas aparvalhadas
aventuras.
Habitante dos meandros
onde a escolha é muita e o saber,
vário, despejo na janela
detritos, esponjas, velhas
penas que nem para um cozido
servem.

(zé eduardo, bsb, 20/5/2007)

Wednesday, May 16, 2007

Eu sei que parece não fazer sentido

Eu sei que parece não fazer sentido
Eu continuar te querendo numa hora dessas.
E que, se não me quisesse, você não viria
Jogar nossa vida na porta pra eu receber,
Como se o que é nosso eu pudesse acolher sozinho.


Zé Eduardo Mendonça
BSB, 15/5/2007

Tuesday, May 15, 2007

O que eu disse à criatura desejosa









Este é um poema de Kabir, um tecelão de profissão nascido na Índia em 1398 e tido ainda como um dos maiores poetas do país. A tradução é minha e literal, no sentido de que pretendi apenas manter o sentido, sem a preocupação formal com a métrica, o que seria quase impossível. Mas vale como uma afirmação de redenção e de um pedido, ainda, de perdão, se possível.



Eu disse à criatura desejosa dentro de mim:
Qual é o rio que queres cruzar?
Não há viajantes na trilha do rio, e não há trilha.
Vês alguém se mover nas margens, ou a descansar?
Não há rio algum, ou barco, ou barqueiro.
Não há tampouco corda de reboque, e ninguém para puxá-la.
Não há chão, céu, tempo, ribanceira, não há vau!

E não há corpo, e nem mente!
Acreditas que haja um lugar que deixe a alma menos sedenta?
Nesta grande ausência nada encontrarás.

Sê forte, então, e entrai em seu próprio corpo:
Lá há um lugar sólido para teus pés.
Penses com cuidado!
Não vás te perder em outro lugar!

Kabir diz: jogues fora de vez todos os pensamentos de coisas imaginárias,
E permaneças firme naquilo que és.

Sunday, May 13, 2007

O Fim e o Princípio

Não me deixes te contar meus sonhos.
Eles são eu mas, sobretudo, um outro
cujas faces quedam entrevistas
eternamente a deslindar as máscaras,
a escandir todas sempre a questão mesma:
sou eu este ou sou um outro?
Que olhos vertem lágrimas quais santos nos milagres,
sentimentos de pedra nascituros?
Que olhos jamais choram,
seco taquaral de moscas a zumbir no sonolento fim de tarde?
.........


O vento varre pedras e taqüaras,
e seu percorrer tece canções.
Meus ouvidos nem mais ouvem,
de atentos tanto à melodia.
Espiralo, rodopio, giro a valsa universal.
Eu e os outros são todos irmãos que, juntos, comungam.
Há em tudo uma música maior.
Amen.

zé eduardo
bsb, 2/5/2007

Papel Ofício

Hoje eu posso dizer quanto te amo,
Tranqüila luz de um trenzinho.
Estou liberto e o vento me oferece travessura.
Tenho a certeza da pedra nos corpos dos suicidas.
As cartilhas me ditam:
Vovô viu (não viu?)
a vulva.
Esta página me manda:
Escreva ou te devoro.
Eu não ando com fome de nada.
Eu olho o pastel do lado do caldo de cana,
Paisagem que nada lhes acrescenta.
Os dedos dão nós nos escafandros.
Na algas o fundo do fundo do mar.

.............

E não tem peixe.
Hoje tão tem peixe de jeito nenhum.
Hoje tem só resquício de espinha,
Tilápias bagres baicurus,
Sorte toda (e azar) de criaturas.

................

Sobe a maré nas margens do ribeirão.
Sobe a maré na praia tilintosa d'onda,
Credo cavaco vem com a onda
Que eu mal posso acreditar.
Meu pais é o épico de Ulisses,
E tanto a reescrever e
a fazer caber em resmas de papel ofício.

(zé eduardo)

bsb 1/5/2007

Um sangue, outro

Se cada um de mim se fatiasse na balança
Eu nem mesmo saberia jamais de onde viria o maior peso.
Se um dia eu pudesse morrer de tudo
Eu certamente de tudo morreria.
Parece que um dia eu perdi meu passo
E nada há mais que me console.
Estou feito balão solto no ar em festa de criança,
A desatinar de tudo o que faz sentido.
Meu coração não para de sangrar, deve ser de quando eu nasci.

zé eduardo

BSB 4/5/2007

A Indigestão das Traças

Há muito tempo que não durmo de roupa.
Tirante o tênis, é como me vou deitar hoje.
Onde foi parar meu dorminhoco aconchego,
Destelhadas nuvens de abandono?
Faz frio em casa,
E o céu coberto de milagre
Ribomba até o último dos últimos dos últimos dias presentes.
(Trança a mente nos cabelos.)
Há muito tempo que não durmo sem roupa.
Dentro de mim brota o todo vestuário,
E são listas auriverdes, pendões de minhas flamejantes esperanças.
Sou hoje Resinalvo, Serguei, homem de qualquer nome,
Traça a roer tecidos nada originais.

..........

E a indigestão dos bichos
A comer sempre de tudo.

(zé eduardo)

4/5/2007

Eu não sei

Dizem que lá em cima reina a harmonia
E que nos céus tudo é regular.
Eu não sei.
Eu sei de supernovas, universo em expansão,
A mesma miserável condição de nós que aqui em baixo habitamos.
Dizem que a distância é o olvido,
Mas eu não estou distante, não esqueci, quero copular com minha amada todo dia.
A boca do mundo grita o impossível, e nem por isso.
Não só não estou distante: estou próximo como a chama está da morte,
Estou pleno de minhas necessidades minhas,
Solto um berro no beco sem eco,
Destrambelho o que de mim restou até que a noite durma.
E quando dormir virão os sonhos, as visões, tessitura áspera da pele tua tão ferida.
E ao acordar exalarei néctares, perfumes indizíveis.
Deus meu, por que apenas eu fui a teu encontro,
Por que escorregastes nas pedras na beira do precipício,
Por que te acompanhei de mãos dadas quando havia um mundo a mais,
Mundo que nem não vislumbrei nem quis,
Atado que estava a teus olhos cegos?


..........


É outra manhã e a melodia destes versos torra
no sol impiedoso.
Retinas queimam a seca madrugada.
É como se eu tivesse tecnicamente abandonado a vida,
Achando que a vida fosse mais um de muitos gestos.
Não é, Catarina.
Não é, nós no cinema a experimentar o que um dia viria nunca a ser.
Indesejável, desejando, quero meus padrinhos mágicos,
Quero alguém que me desate dessa tola algaravia que é a vida.

Zé eduardo

Bsb, 5/5/2007