Tua voz inaugura meu dia já no começo da tarde,
tudo recomeça com esta luz que nuvem nenhuma mais bloqueia
e teu sorriso invade a sala onde logo tudo vai se chamar nosso,
a casa onde todos os teus cheiros vão pairar,
o espaço onde ensaiaremos dia a dia nossas danças,
o aprender eterno e amoroso dos gestos que se chamam vida.
São Paulo, 2 de abril de 2012
Monday, April 02, 2012
Porque inauguras esse inusitado outono,
eu te amo.
Porque deitas suas folhas sobre minha relva,
sussurras em meus ouvidos sempre tão apaixonadamente,
te quero.
Porque o frio se aproxima, mas nós sabemos passar as estações,
porque elas se misturam como vinhas
que produzem os melhores dos melhores sonhos,
eu te desejo.
16.3.2012
eu te amo.
Porque deitas suas folhas sobre minha relva,
sussurras em meus ouvidos sempre tão apaixonadamente,
te quero.
Porque o frio se aproxima, mas nós sabemos passar as estações,
porque elas se misturam como vinhas
que produzem os melhores dos melhores sonhos,
eu te desejo.
16.3.2012
Agora que o tempo,
Ainda que ainda suspenso,
Começa a ditar esta simultânea marcha
de nossas vidas ambas;
Agora que adivinhamos
A hora vizinha de vivermos juntos,
Se juntam dentro de mim
as palavras todas que eu sempre quero tanto te dizer:
Janela, beiral, terra, chão batido, goiabeira,
pés descalços dedos teus pisando o quintal onde moram os desejos,
Pomar, frutas, tua rubra intimidade, sementes a plantar em teu regaço,
Espaço meu recôndito onde habito,
Teu olhar amplo para o céu ,
as mãos compridas compondo redondilhas,
Embrulhando com barbante tuas cantigas a enviar para mim pelos correios,
Tuas palavras que atravessam distancias toda noite,
A sonoridade inaudita de tuas vontades,
Caprichos de menina, conspícuos olhos de mulher,
Vem me banhar com tuas águas mornas,
Vem deitar teu esguio corpo junto ao meu,
Vem me ouvir falar em teu ouvido que te amo.
SP 28.3.2012
Ainda que ainda suspenso,
Começa a ditar esta simultânea marcha
de nossas vidas ambas;
Agora que adivinhamos
A hora vizinha de vivermos juntos,
Se juntam dentro de mim
as palavras todas que eu sempre quero tanto te dizer:
Janela, beiral, terra, chão batido, goiabeira,
pés descalços dedos teus pisando o quintal onde moram os desejos,
Pomar, frutas, tua rubra intimidade, sementes a plantar em teu regaço,
Espaço meu recôndito onde habito,
Teu olhar amplo para o céu ,
as mãos compridas compondo redondilhas,
Embrulhando com barbante tuas cantigas a enviar para mim pelos correios,
Tuas palavras que atravessam distancias toda noite,
A sonoridade inaudita de tuas vontades,
Caprichos de menina, conspícuos olhos de mulher,
Vem me banhar com tuas águas mornas,
Vem deitar teu esguio corpo junto ao meu,
Vem me ouvir falar em teu ouvido que te amo.
SP 28.3.2012
A vida sem você
Tiraram de mim meus piões, os fios de minhas pipas,
a caixinha de meus tocos de giz colorido
com os quais eu desenhava a amarelinha
para pular até o seu céu.
Me botaram sentado olhando pro cantinho da parede,
Eu que só faço te amar.
A vida longe de você nao presta.
março 2012
a caixinha de meus tocos de giz colorido
com os quais eu desenhava a amarelinha
para pular até o seu céu.
Me botaram sentado olhando pro cantinho da parede,
Eu que só faço te amar.
A vida longe de você nao presta.
março 2012
Monday, February 27, 2012
A Construção da Intimidade
Eu te dou: minhas bolinhas de gude,
a verde com uma lasca de banda,
a amarela rajada como teu olho (que nao sei se é o esquerdo ou o direito).
Você me dá: tuas caixinhas com
tuas cartas de amor,
teus santos todos,
os pedaços de chocolate que não estiverem debaixo de tua cama,
os retratos de teus cavalos,
os cavaleiros de toda a Távola Redonda,
uma jangada de papel para se chegar a bom termo a Ítaca.
Eu te dou: minhas noites insones, meus espantos,
o bauzinho com o camafeu do rosto que não conheço,
um prendedor de gravata de meu pai
(porque eu também sei ser sisudo),
o menino que olha de dentro da foto com as mãos pequenas postas sobre a mesa,
o globo do mundo e a lousa atrás com os meus saberes todos, os olhos que sobre ti pousam bonitos e alumbrados.
Você me dá: minha ilha onde no momento chove, meu silêncio e minha solidão,
tua canequinha de folha de flandres de tua infância descalça num canto de Pernambuco,
teu canivete para descascar as mangas,
as partículas brilhantes do solo onde pisas com teus dedos finos e espalhados.
Eu te dou: a tramela da porta para que nunca ninguém mais a tranque,
as estrelinhas de botar no teto que eu comprei um dia para até então dormirem sob o tempo nublado,
meu sopro que revela o céu no qual teu hálito habita.
Você me dá: o troquinho do sorvete,
as ninharias pequenas e as grandes,
os estalinhos de São João,
o luzir, as tempestades das quais tu tens tanto medo, os raios de tudo que em ti reverbera.
Eu te dou: todo o mato que em mim cresce sem controle,
meu desajuízo, minha intermitência e minha perenidade,
minhas águas que lavam todos os pelos que contém seu corpo,
meus sonhos que não conto para ninguem,
mas só para você eu conto porque moram em meus olhos que tu aquietas,
eu enfim feliz,
eu finalmente repousado.
Salvador, 19 de fevereiro de 2012
a verde com uma lasca de banda,
a amarela rajada como teu olho (que nao sei se é o esquerdo ou o direito).
Você me dá: tuas caixinhas com
tuas cartas de amor,
teus santos todos,
os pedaços de chocolate que não estiverem debaixo de tua cama,
os retratos de teus cavalos,
os cavaleiros de toda a Távola Redonda,
uma jangada de papel para se chegar a bom termo a Ítaca.
Eu te dou: minhas noites insones, meus espantos,
o bauzinho com o camafeu do rosto que não conheço,
um prendedor de gravata de meu pai
(porque eu também sei ser sisudo),
o menino que olha de dentro da foto com as mãos pequenas postas sobre a mesa,
o globo do mundo e a lousa atrás com os meus saberes todos, os olhos que sobre ti pousam bonitos e alumbrados.
Você me dá: minha ilha onde no momento chove, meu silêncio e minha solidão,
tua canequinha de folha de flandres de tua infância descalça num canto de Pernambuco,
teu canivete para descascar as mangas,
as partículas brilhantes do solo onde pisas com teus dedos finos e espalhados.
Eu te dou: a tramela da porta para que nunca ninguém mais a tranque,
as estrelinhas de botar no teto que eu comprei um dia para até então dormirem sob o tempo nublado,
meu sopro que revela o céu no qual teu hálito habita.
Você me dá: o troquinho do sorvete,
as ninharias pequenas e as grandes,
os estalinhos de São João,
o luzir, as tempestades das quais tu tens tanto medo, os raios de tudo que em ti reverbera.
Eu te dou: todo o mato que em mim cresce sem controle,
meu desajuízo, minha intermitência e minha perenidade,
minhas águas que lavam todos os pelos que contém seu corpo,
meus sonhos que não conto para ninguem,
mas só para você eu conto porque moram em meus olhos que tu aquietas,
eu enfim feliz,
eu finalmente repousado.
Salvador, 19 de fevereiro de 2012
A Sagração da Primavera
Estas sementes deitadas em nossos lençóis,
estes dias em que tudo começou para não mais terminar,
o que brotou, floresceu, morreu, tornou a brotar de novo,
neste doce contínuo de teu ser,
esta trégua que tu impões ao tempo,
o ritmo desta determinada marcha
da seiva com que tu cobres estas nossas vidas de nós inesgotáveis,
os espelhos que tu crias na colheita do orvalho em tuas folhas,
a noite de pirilampos que tu acendes
para que trilhem iluminadas nossas histórias todas,
caules, troncos rodando rio abaixo,
pétalas que olham das margens de soslaio, coradas de seus recatos,
eu te abraço, te beijo, te amo e te fecundo,
as nuvens se desmancham sobre o solo,
e nossa paixão são os frutos verdes, os frutos maduros, os frutos serenos, o que haverá de dar a comer a quem irá plantar
neste eterno polinizar do mundo.
Salvador, 21 de fevereiro de 2012
estes dias em que tudo começou para não mais terminar,
o que brotou, floresceu, morreu, tornou a brotar de novo,
neste doce contínuo de teu ser,
esta trégua que tu impões ao tempo,
o ritmo desta determinada marcha
da seiva com que tu cobres estas nossas vidas de nós inesgotáveis,
os espelhos que tu crias na colheita do orvalho em tuas folhas,
a noite de pirilampos que tu acendes
para que trilhem iluminadas nossas histórias todas,
caules, troncos rodando rio abaixo,
pétalas que olham das margens de soslaio, coradas de seus recatos,
eu te abraço, te beijo, te amo e te fecundo,
as nuvens se desmancham sobre o solo,
e nossa paixão são os frutos verdes, os frutos maduros, os frutos serenos, o que haverá de dar a comer a quem irá plantar
neste eterno polinizar do mundo.
Salvador, 21 de fevereiro de 2012
Louise chega em minha vida
Estou aprendendo a dar continente
pra esta tua caótica e serelepe radiância.
Estou aprendendo a toda noite abraçar o som de tua voz.
Estou aprendendo a ver você chegar devagar,
você que chega sempre tão súbita,
loiro tsunami de pernas mais altas do que as ondas.
2.2.2012
pra esta tua caótica e serelepe radiância.
Estou aprendendo a toda noite abraçar o som de tua voz.
Estou aprendendo a ver você chegar devagar,
você que chega sempre tão súbita,
loiro tsunami de pernas mais altas do que as ondas.
2.2.2012
Wednesday, February 01, 2012
A mulher beduína
A mulher beduína vaga pelos desertos épicos da Síria.
A mulher beduína trafega pela poeira do meu coração.
Ela é diversa em tudo - seus olhos de heterocromia,
um da cor do damasco, outro verde como os oásis que me proporciona,
criam mundos inúmeros, a mim acostumado a óticas singulares, mas subitamente tomado de surpresa por seus encantos muitos, múltiplos e inenarráveis.
Ela não é uma mulher só, a beduína. Ela traz em si a alegre confusão do souk e a herança dos sabores e cheiros calabreses dos que cruzaram seu caminho em uma mediterrânea troca de sangues, a loira baiana que samba nos blocos, olhando o mundo de sua apreciável altura.
Mulheres beduínas não deixam nunca suas tendas, mas não esta mulher.
Ela se aventura, e em suas peraltices, traquinagens, e seu jogo de bola na rua com seus pés desmesurados provoca fenômenos sísmicos - por onde ela passa a terra treme.
A minha terra treme quando ela passa.
O meu coração nem sabe o que dizer, e ainda bem que não tem de dizer nada.
A mulher beduína é quem enfim eu quero - com seu cheiro, gosto e textura de manga em minha boca, com seu aroma de cânfora, hortelã, manjericão.
A mulher beduína tem propriedade em tudo que fala, e como fala a mulher beduína - fala de mundos reais, paralelos, transversos, e tudo nela é o mesmo mundo.
30.1.2012
A mulher beduína trafega pela poeira do meu coração.
Ela é diversa em tudo - seus olhos de heterocromia,
um da cor do damasco, outro verde como os oásis que me proporciona,
criam mundos inúmeros, a mim acostumado a óticas singulares, mas subitamente tomado de surpresa por seus encantos muitos, múltiplos e inenarráveis.
Ela não é uma mulher só, a beduína. Ela traz em si a alegre confusão do souk e a herança dos sabores e cheiros calabreses dos que cruzaram seu caminho em uma mediterrânea troca de sangues, a loira baiana que samba nos blocos, olhando o mundo de sua apreciável altura.
Mulheres beduínas não deixam nunca suas tendas, mas não esta mulher.
Ela se aventura, e em suas peraltices, traquinagens, e seu jogo de bola na rua com seus pés desmesurados provoca fenômenos sísmicos - por onde ela passa a terra treme.
A minha terra treme quando ela passa.
O meu coração nem sabe o que dizer, e ainda bem que não tem de dizer nada.
A mulher beduína é quem enfim eu quero - com seu cheiro, gosto e textura de manga em minha boca, com seu aroma de cânfora, hortelã, manjericão.
A mulher beduína tem propriedade em tudo que fala, e como fala a mulher beduína - fala de mundos reais, paralelos, transversos, e tudo nela é o mesmo mundo.
30.1.2012
Continente
Estou aprendendo a dar continente
pra esta tua caótica e serelepe radiância.
Estou aprendendo a toda noite abraçar o som de tua voz.
Estou aprendendo a ver você chegar devagar,
você que chega sempre tão súbita,
loiro tsunami de pernas mais altas do que as ondas.
2.1.2012
pra esta tua caótica e serelepe radiância.
Estou aprendendo a toda noite abraçar o som de tua voz.
Estou aprendendo a ver você chegar devagar,
você que chega sempre tão súbita,
loiro tsunami de pernas mais altas do que as ondas.
2.1.2012
Wednesday, June 15, 2011
Sargaços
Tripulações, corpos putrefatos,
viajantes de rotas insensatas,
o destino que o adernar soçobra,
florescências de algas em luzes mal tramadas
tudo que em torno se poderia chamar saudade.
14/6/2011
viajantes de rotas insensatas,
o destino que o adernar soçobra,
florescências de algas em luzes mal tramadas
tudo que em torno se poderia chamar saudade.
14/6/2011
Wednesday, May 18, 2011
Umbra Umbela
Debaixo de teu guarda-sombras estão:
Borrascas, tempestades,
Corpo cheirando após a chuva,
Uma nota de um real amarfanhada onde alguém escreveu:
Que Deus me proteja, em quase incompreensível garatuja;
Um luar que range como se estivesse enferrujado
de tanto ficar parado no mesmo lugar,
A fertilidade de teu ventre,
Pirilampos tingindo todas as tuas noites mal dormidas,
Cupins a desesculpir teu leito,
As ilusões perdidas, os sísmicos abalos
que as fraturas de teu solo provocam,
O hálito neutro da manhã tornado vento
E que o braseiro de teus lábios traduz no mais
desejado beijo de uma vida;
fotografias desbotadas, notas dissonantes, harmonias tortas
a se compor disparatadas e soar como um outono,
folhas a cair milimetricamente ao pé dos plátanos
(que nem sequer existem fora dos romances),
florilégios de uma corte decadente e distante e perdida
que olhos num esgar decifram em hieroglifos,
sentidos múltiplos da mesma escrita;
mesas de bares, beiras de lagos e afetos,
arquiteturas que fazem olhar os céus
onde as constelações se descortinam a não nos revelar nada;
dedos finos, longos, a se incrustar em minhas costas,
em suas doces trilhas indeléveis;
arfar que se desconhecia em noites surpresas
da magia de gozos indecifráveis;
murmúrios, sussurros, palavras ditas que teimam
em jamais se repetir, inclusão de auroras, membros dormentes, peixes olhando paredes de aquários acostumados a nada transpor,
desenhos animados, fantasias, balões pisados no fim da festa,
comemoração que nunca finda, bolos dormindo nas geladeiras para o café da manhã que não virá,
eu tremeluzo, me inflo e abundo
nesta animação tanta e inúmera que tu és.
Zé Eduardo
29/9/2007
Borrascas, tempestades,
Corpo cheirando após a chuva,
Uma nota de um real amarfanhada onde alguém escreveu:
Que Deus me proteja, em quase incompreensível garatuja;
Um luar que range como se estivesse enferrujado
de tanto ficar parado no mesmo lugar,
A fertilidade de teu ventre,
Pirilampos tingindo todas as tuas noites mal dormidas,
Cupins a desesculpir teu leito,
As ilusões perdidas, os sísmicos abalos
que as fraturas de teu solo provocam,
O hálito neutro da manhã tornado vento
E que o braseiro de teus lábios traduz no mais
desejado beijo de uma vida;
fotografias desbotadas, notas dissonantes, harmonias tortas
a se compor disparatadas e soar como um outono,
folhas a cair milimetricamente ao pé dos plátanos
(que nem sequer existem fora dos romances),
florilégios de uma corte decadente e distante e perdida
que olhos num esgar decifram em hieroglifos,
sentidos múltiplos da mesma escrita;
mesas de bares, beiras de lagos e afetos,
arquiteturas que fazem olhar os céus
onde as constelações se descortinam a não nos revelar nada;
dedos finos, longos, a se incrustar em minhas costas,
em suas doces trilhas indeléveis;
arfar que se desconhecia em noites surpresas
da magia de gozos indecifráveis;
murmúrios, sussurros, palavras ditas que teimam
em jamais se repetir, inclusão de auroras, membros dormentes, peixes olhando paredes de aquários acostumados a nada transpor,
desenhos animados, fantasias, balões pisados no fim da festa,
comemoração que nunca finda, bolos dormindo nas geladeiras para o café da manhã que não virá,
eu tremeluzo, me inflo e abundo
nesta animação tanta e inúmera que tu és.
Zé Eduardo
29/9/2007
Friday, March 04, 2011
Quase tudo
Quase todo mundo que a gente achava que existia
não existe.
Quase todas as nuvens cinzas que a gente achava que iam acabar em chuva
não acabaram.
Quase toda a luz do sol que ia secar a roupa do varal ficou por trás das mesmas nuvens.
Quase a vida toda ficou dependurada em metros de corda fina,
botada pra secar desta umidade eterna.
4/3/2011
não existe.
Quase todas as nuvens cinzas que a gente achava que iam acabar em chuva
não acabaram.
Quase toda a luz do sol que ia secar a roupa do varal ficou por trás das mesmas nuvens.
Quase a vida toda ficou dependurada em metros de corda fina,
botada pra secar desta umidade eterna.
4/3/2011
Tuesday, February 22, 2011
Poema para Cinthia
Falsa magra de olhos redondos
como as improváveis esferas estelares,
ela se aproximou de mim oferecendo flores.
Eu não comprei nenhuma.
Voz de sereia a perturbar meu sono
e me fazer rever de novo tudo que era vida.
Eu não ouvi.
Mulher de vento e múltiplos mundos,
a abrir meus olhos cansados.
E eu não vi.
Tempestade, aguaceiro, água fluindo para o mar,
redemoinhos, furacões a invadir minha pátria
como os mais naturais dos naturais desastres.
Mas isto eu sinto.
21/2/2011
como as improváveis esferas estelares,
ela se aproximou de mim oferecendo flores.
Eu não comprei nenhuma.
Voz de sereia a perturbar meu sono
e me fazer rever de novo tudo que era vida.
Eu não ouvi.
Mulher de vento e múltiplos mundos,
a abrir meus olhos cansados.
E eu não vi.
Tempestade, aguaceiro, água fluindo para o mar,
redemoinhos, furacões a invadir minha pátria
como os mais naturais dos naturais desastres.
Mas isto eu sinto.
21/2/2011
Thursday, October 28, 2010
Poema brasiliense
Parece às vezes que meu coração murmura,
como se entoasse um mantra.
Antes assim, do que gritos,
antes assim do que o pulsar desabalado
de um desatino qual bonde sem condutor.
como se entoasse um mantra.
Antes assim, do que gritos,
antes assim do que o pulsar desabalado
de um desatino qual bonde sem condutor.
Tuesday, October 05, 2010
Brasília, 5 de outubro de 2010
Eu poderia com a memória de minhas mãos esculpir seu corpo da pedra.
Eu poderia com minhas mãos criar o fogo de velas que nunca se apagam,
e com o toque ligeiro de suas mãos em minhas costas tentar reconstruir um mundo.
Eu não consigo viver a vida de ilusões perdidas porque elas simplesmente não se perdem.
Eu não posso usar meus óculos escuros de noite,
mas eu também prefiro tropeçar na mobília destas coisas semoventes -
e não posso tratar como pronomes isso tudo,
designações impróprias de atitudes vãs.
Amar pode não ser um verbo intransitivo,
e o conjugo em cada quadra da cidade mágica.
Tem tanta matéria em nós que brilha,
tanta inconsistência destas tardes derretidas.
E estas luzes de memórias partilhadas até nunca mais.
Eu poderia com minhas mãos criar o fogo de velas que nunca se apagam,
e com o toque ligeiro de suas mãos em minhas costas tentar reconstruir um mundo.
Eu não consigo viver a vida de ilusões perdidas porque elas simplesmente não se perdem.
Eu não posso usar meus óculos escuros de noite,
mas eu também prefiro tropeçar na mobília destas coisas semoventes -
e não posso tratar como pronomes isso tudo,
designações impróprias de atitudes vãs.
Amar pode não ser um verbo intransitivo,
e o conjugo em cada quadra da cidade mágica.
Tem tanta matéria em nós que brilha,
tanta inconsistência destas tardes derretidas.
E estas luzes de memórias partilhadas até nunca mais.
Thursday, July 22, 2010
Quase tudo em você que eu amo
Os sulcos quando você franze a testa.
Tuas mãos.
O bater de cílios que faz ventar a folha de papel onde eu tentei em vão escrever um poema.
Teus pés inertes e incomodados.
Suas mãos que sempre espalham pelas mesas lacres de cigarros, palitos de fósforo e uma tristeza funda vinda de alguém que nem sequer é triste.
Seus lábios que abraçam a beira de um copo.
A gola de seus improvisados agasalhos.
Teu pescoço comprido como um quadro de Modigliani.
Teu olhar comprido como o mundo e além dele.
Tudo que eu não digo.
Tudo que eu não tenho mais como dizer.
Julho 2010
Tuas mãos.
O bater de cílios que faz ventar a folha de papel onde eu tentei em vão escrever um poema.
Teus pés inertes e incomodados.
Suas mãos que sempre espalham pelas mesas lacres de cigarros, palitos de fósforo e uma tristeza funda vinda de alguém que nem sequer é triste.
Seus lábios que abraçam a beira de um copo.
A gola de seus improvisados agasalhos.
Teu pescoço comprido como um quadro de Modigliani.
Teu olhar comprido como o mundo e além dele.
Tudo que eu não digo.
Tudo que eu não tenho mais como dizer.
Julho 2010
Wednesday, July 21, 2010
O céu de Brasília 2
Porque finalmente as coisas são como são,
Eu deito os olhos nas nuvens e não vejo mais gigantes,
Ursos, rostos de aparência extravagante, ou sonhos bons,
Ou pesadelos.
Eu vejo os aviões singrando um céu claro
E depois baixo os olhos e vejo a coruja na cerca,
E depois adentro os olhos e os recolho,
Porque ando maravilhado,
Porque finalmente as coisas são como são.
Julho 2010
Eu deito os olhos nas nuvens e não vejo mais gigantes,
Ursos, rostos de aparência extravagante, ou sonhos bons,
Ou pesadelos.
Eu vejo os aviões singrando um céu claro
E depois baixo os olhos e vejo a coruja na cerca,
E depois adentro os olhos e os recolho,
Porque ando maravilhado,
Porque finalmente as coisas são como são.
Julho 2010
Sunday, May 30, 2010
Dor
Meu corpo ainda dói todas as manhãs,
e me levanto vestindo chinelos
e tateio sempre o caminho das relíquias pisoteadas.
Sincopadamente a vida prossegue
no tango de becos abandonados onde as sombras dançam
neste alheamento dos dias que são sempre quartas-feiras,
terças-feiras, oitavas dedilhadas em teclado que a morte desafinou.
Eu respiro você a cada manhã e a cada respirar,
fumaça espiralando conjeturas,
tudo que nunca mais vai ser,
tudo que eu queria que um dia ainda fosse.
e me levanto vestindo chinelos
e tateio sempre o caminho das relíquias pisoteadas.
Sincopadamente a vida prossegue
no tango de becos abandonados onde as sombras dançam
neste alheamento dos dias que são sempre quartas-feiras,
terças-feiras, oitavas dedilhadas em teclado que a morte desafinou.
Eu respiro você a cada manhã e a cada respirar,
fumaça espiralando conjeturas,
tudo que nunca mais vai ser,
tudo que eu queria que um dia ainda fosse.
Thursday, May 13, 2010
Outono
Esta melancolia
de bule fervendo e galinhas ciscando no quintal.
Esta triste limitação do tempo
e o jogo com bola de meia no fim da tarde na rua Oscar Freire.
Esta abundância da memória em que eu patino rouco e desatinado,
estas damas-da-noite cujo cheiro busco em todos os cheiros.
Este túnel de infindo comprimento,
esta luz baça de lamparina pendurada na porta,
a poeira que a vassoura varre que paira no ar como uma neve.
Bafejo no espelho e escrevo nele com o dedo que eu te amo,
sopro o ar frio esta fumaça de inverno precoce,
este precoce encanecer de tudo.
13.5.2010
de bule fervendo e galinhas ciscando no quintal.
Esta triste limitação do tempo
e o jogo com bola de meia no fim da tarde na rua Oscar Freire.
Esta abundância da memória em que eu patino rouco e desatinado,
estas damas-da-noite cujo cheiro busco em todos os cheiros.
Este túnel de infindo comprimento,
esta luz baça de lamparina pendurada na porta,
a poeira que a vassoura varre que paira no ar como uma neve.
Bafejo no espelho e escrevo nele com o dedo que eu te amo,
sopro o ar frio esta fumaça de inverno precoce,
este precoce encanecer de tudo.
13.5.2010
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