Saturday, May 26, 2007

Flowers



















My heart is a boulevard in spring.
My heart is a cemetery in spring.
Both covered with flowers.
They are everywhere you look,
flowers to say goodbye to
(they are the ones with thorns
and the ones with the sweetest smell,
the most beautiful your eyes will ever see).
That's why we love them, flowers.
And we suffer when they die
(even though they don't).
We watch them fade,
but we only think they do
(we have to, don't we, without them?).
They live their own lives,
and they will always blossom
in spring, flowers.
And we will forever love them,
flowers,
red petals soft with the
moist of morning,
flowers so wild
no garden should possess.


(zé eduardo, sp, 26/5/2007)

Wednesday, May 23, 2007

I Shall Die









I shall die because
the gods gave me too much,
they maybe gave me too much to handle.
I shall be happy ever after,
because that's what you do after you die.

.....

When she was four,
my daughter said that what happens when you die
is that you vomit.
You just simply throw up,
it's your soul going out for a ride.
Another one.

....

At the door you won't find written
emergency
Not even exit.
Just open it.
Outside there are flowers
but you don't have to go there to find them.

........

So be comfortable with what you have,
do not worry with what you've left behind.
Behind does not exist.
Life does.


(zé eduardo, são paulo, 22/5/2007)

Sunday, May 20, 2007

Desta Janela

Desta janela
tudo é a visão gótica e estreita.
Desta viela
onde tudo se torce em sumo
e a vida finalmente desabafa,
contemplo o nada da negritude tua,
o pálido forjar de ruas escuras,
o desquietamento mesmo
das tuas aparvalhadas
aventuras.
Habitante dos meandros
onde a escolha é muita e o saber,
vário, despejo na janela
detritos, esponjas, velhas
penas que nem para um cozido
servem.

(zé eduardo, bsb, 20/5/2007)

Wednesday, May 16, 2007

Eu sei que parece não fazer sentido

Eu sei que parece não fazer sentido
Eu continuar te querendo numa hora dessas.
E que, se não me quisesse, você não viria
Jogar nossa vida na porta pra eu receber,
Como se o que é nosso eu pudesse acolher sozinho.


Zé Eduardo Mendonça
BSB, 15/5/2007

Tuesday, May 15, 2007

O que eu disse à criatura desejosa









Este é um poema de Kabir, um tecelão de profissão nascido na Índia em 1398 e tido ainda como um dos maiores poetas do país. A tradução é minha e literal, no sentido de que pretendi apenas manter o sentido, sem a preocupação formal com a métrica, o que seria quase impossível. Mas vale como uma afirmação de redenção e de um pedido, ainda, de perdão, se possível.



Eu disse à criatura desejosa dentro de mim:
Qual é o rio que queres cruzar?
Não há viajantes na trilha do rio, e não há trilha.
Vês alguém se mover nas margens, ou a descansar?
Não há rio algum, ou barco, ou barqueiro.
Não há tampouco corda de reboque, e ninguém para puxá-la.
Não há chão, céu, tempo, ribanceira, não há vau!

E não há corpo, e nem mente!
Acreditas que haja um lugar que deixe a alma menos sedenta?
Nesta grande ausência nada encontrarás.

Sê forte, então, e entrai em seu próprio corpo:
Lá há um lugar sólido para teus pés.
Penses com cuidado!
Não vás te perder em outro lugar!

Kabir diz: jogues fora de vez todos os pensamentos de coisas imaginárias,
E permaneças firme naquilo que és.

Sunday, May 13, 2007

O Fim e o Princípio

Não me deixes te contar meus sonhos.
Eles são eu mas, sobretudo, um outro
cujas faces quedam entrevistas
eternamente a deslindar as máscaras,
a escandir todas sempre a questão mesma:
sou eu este ou sou um outro?
Que olhos vertem lágrimas quais santos nos milagres,
sentimentos de pedra nascituros?
Que olhos jamais choram,
seco taquaral de moscas a zumbir no sonolento fim de tarde?
.........


O vento varre pedras e taqüaras,
e seu percorrer tece canções.
Meus ouvidos nem mais ouvem,
de atentos tanto à melodia.
Espiralo, rodopio, giro a valsa universal.
Eu e os outros são todos irmãos que, juntos, comungam.
Há em tudo uma música maior.
Amen.

zé eduardo
bsb, 2/5/2007

Papel Ofício

Hoje eu posso dizer quanto te amo,
Tranqüila luz de um trenzinho.
Estou liberto e o vento me oferece travessura.
Tenho a certeza da pedra nos corpos dos suicidas.
As cartilhas me ditam:
Vovô viu (não viu?)
a vulva.
Esta página me manda:
Escreva ou te devoro.
Eu não ando com fome de nada.
Eu olho o pastel do lado do caldo de cana,
Paisagem que nada lhes acrescenta.
Os dedos dão nós nos escafandros.
Na algas o fundo do fundo do mar.

.............

E não tem peixe.
Hoje tão tem peixe de jeito nenhum.
Hoje tem só resquício de espinha,
Tilápias bagres baicurus,
Sorte toda (e azar) de criaturas.

................

Sobe a maré nas margens do ribeirão.
Sobe a maré na praia tilintosa d'onda,
Credo cavaco vem com a onda
Que eu mal posso acreditar.
Meu pais é o épico de Ulisses,
E tanto a reescrever e
a fazer caber em resmas de papel ofício.

(zé eduardo)

bsb 1/5/2007

Um sangue, outro

Se cada um de mim se fatiasse na balança
Eu nem mesmo saberia jamais de onde viria o maior peso.
Se um dia eu pudesse morrer de tudo
Eu certamente de tudo morreria.
Parece que um dia eu perdi meu passo
E nada há mais que me console.
Estou feito balão solto no ar em festa de criança,
A desatinar de tudo o que faz sentido.
Meu coração não para de sangrar, deve ser de quando eu nasci.

zé eduardo

BSB 4/5/2007

A Indigestão das Traças

Há muito tempo que não durmo de roupa.
Tirante o tênis, é como me vou deitar hoje.
Onde foi parar meu dorminhoco aconchego,
Destelhadas nuvens de abandono?
Faz frio em casa,
E o céu coberto de milagre
Ribomba até o último dos últimos dos últimos dias presentes.
(Trança a mente nos cabelos.)
Há muito tempo que não durmo sem roupa.
Dentro de mim brota o todo vestuário,
E são listas auriverdes, pendões de minhas flamejantes esperanças.
Sou hoje Resinalvo, Serguei, homem de qualquer nome,
Traça a roer tecidos nada originais.

..........

E a indigestão dos bichos
A comer sempre de tudo.

(zé eduardo)

4/5/2007

Eu não sei

Dizem que lá em cima reina a harmonia
E que nos céus tudo é regular.
Eu não sei.
Eu sei de supernovas, universo em expansão,
A mesma miserável condição de nós que aqui em baixo habitamos.
Dizem que a distância é o olvido,
Mas eu não estou distante, não esqueci, quero copular com minha amada todo dia.
A boca do mundo grita o impossível, e nem por isso.
Não só não estou distante: estou próximo como a chama está da morte,
Estou pleno de minhas necessidades minhas,
Solto um berro no beco sem eco,
Destrambelho o que de mim restou até que a noite durma.
E quando dormir virão os sonhos, as visões, tessitura áspera da pele tua tão ferida.
E ao acordar exalarei néctares, perfumes indizíveis.
Deus meu, por que apenas eu fui a teu encontro,
Por que escorregastes nas pedras na beira do precipício,
Por que te acompanhei de mãos dadas quando havia um mundo a mais,
Mundo que nem não vislumbrei nem quis,
Atado que estava a teus olhos cegos?


..........


É outra manhã e a melodia destes versos torra
no sol impiedoso.
Retinas queimam a seca madrugada.
É como se eu tivesse tecnicamente abandonado a vida,
Achando que a vida fosse mais um de muitos gestos.
Não é, Catarina.
Não é, nós no cinema a experimentar o que um dia viria nunca a ser.
Indesejável, desejando, quero meus padrinhos mágicos,
Quero alguém que me desate dessa tola algaravia que é a vida.

Zé eduardo

Bsb, 5/5/2007

As Palavras

As palavras, a gente extremamente mede.
Não no que elas podem de sentido conduzir,
mas no ritmo mesmo, no samba iluminado da poesia,
nas valsas patéticas, mazurcas, hábitos há tanto tempo perdidos
que moram só nas palavras, falta da felicidade esquecida.

As palavras a gente extremamente herda
sons do vernáculo da alma
envoltos apenas em sentido.
Ou em sentimento.


Dizem o quê, as palavras, afinal?
Assim, tão pobremente, que delas é o espaço que ocupam?

(Mas o espaço anteriormente tomado
tinha já ditado um terreno.)

E nós o que fazemos com elas, as palavras?
Nós não fazemos nada,
elas antes de tudo manipulam
a concretizar letras de linotipia.
Como chumbo, que se derrete facilmente e se remolda,
reconstruindo a cada turno a sua frase.

.......

Não há manhã possível
perante tudo que de resto dorme.
Amor, medo, desejo,
tudo circunavega a vida
barco que não tem pra onde voltar.

....

E tudo isso não é lamento,
mais propriamente o derivar
de tanto vivido e lamentado.
À deriva descobrimos terras temerosas,
À deriva Américas esperam sem cais atracadouros e milagres.
Estão todos tantos nus na praia,
todos tão inocentes,
a serviço do poder extremo das armas e das caravelas,
frágeis presas dos domínios sedutores,
ocas, casas, terrenos, domínios
do que não deveria nunca ter sido invadido.
Nús, frágeis, inocentes
No mundo de repente findo pedra,
utilidades, miçangas, todas as moedas de troca,
a se esfarelar na praia,
perdida inda que reencontrada.

.......

O mundo se desfez no novo mundo
palavras, sentimentos e poeta aceitam seu fracasso.
Não se trata mais de algo que faça a menor
mínima importância.
Não se trata mais de amor,
trata-se de jogo, artifício, e abandonado fica o amor
e conseqüência, a canção da sombra onde antes se fazia luz.

zé eduardo

bsb 10/5/2007

Wednesday, April 11, 2007

Sangue



















Teu sangue escorre em meus lençóis
A borrar de vermelho orientais desenhos
De nossa cama tão desarrumada
De nosso sexo tão desarrumado
Nosso despertar onde o mundo imagina
A curva de tudo que volta a si mesma
Nossos reparos, esperanças,
Desconcertadas harmonias que aprendemos a fazer com nossos gestos.
Teu sangue escorre em minha língua,
Revelação de temas inconsúteis,
Primavera que me entrega tua flor,
Doce, álacre, forte, perfume mesmo da fragilidade.
Teu sangue chove em mim, temporal a inundar meu corpo,
E eu me deixo banhar na cachoeira descoberta enfim
Após tanto planalto e plenilúnio.
(as constelações mal te adivinham,
tua clareza, confusão estelar a lhes fazer
sombra nas noites em que te pressinto.)
E tu vens e me cavalga tresloucada amazona
Seios fartos a desvendar caminhos,
Luz de teus peitos a plantar um ninho
Que ave alguma jamais descuidará.


Zé Eduardo

SP, 11/04/2007

Testamento

Amor mio dos puntos, se cayó
la voluntad de seguir siendo, salgo
enhebrada de tu saliva aún e me
aturde dejar de perseguirte, tú que fuiste
llama en la oreja e calidez de un dedo
locura de apuñalamiento certero, ensayo
noble que se caracterizaba por la insistencia
del tema como fondo alegorico,
certerísima me quedo donde estoy, ¿qué
és mas lejos? ¿ Lo que sigue
permaneciendo? Me diseco las manos
para no tener que hacer escrutinios
con las caricias insentidas. Tengo
que escribir aún otro poema
mi sentencia y un método
para olvidarme de tu lengua.

(Concha García)

Gripe


















Meu amor está trancado na vitrina.
Cerro os punhos esmurro seco o vidro mas não adianta nada:
A blindada transparência apenas me devolve sua dureza
E limpo num pano amarrotado o sangue que brota das minhas juntas.
Espremo o tecido vermelho na calçada, e curiosos se juntam para ver.
Ó moço, o que deu tal destempero? Ó moço, tu quer roubar os doces?
Retiro o sal dos olhos e miro os doces na vitrina.
Não é o amor, são doces.
Meus olhos é que andam confundindo tudo.
Meus olhos é que desenxergam e me desencaminham,
Mundo malcriado a me deixar assim febril.

Zé Eduardo
São Paulo
11/04/2007

Saturday, April 07, 2007

O rio
















O rio vem serpenteando
e dentro dele a cobra troca a pele.
O peixe pula e espadana
no brilho onde borbulha a corredeira.
As margens olham tudo, ensimesmadas.
Entre elas água e seixo,
leito onde dorme a turmalina.
Lá vem o mar, e tudo vira tudo e nada mais.

(zé eduardo)

Thursday, April 05, 2007

Saturday, March 31, 2007

Solidão













Eu conheço a solidão dos homens verdadeiramente solitários.
Levanto os olhos sobre a revista
e vejo do outro lado do balcão
o homem que mastiga seu sanduíche
com olhos de quem costumeiramente mira o nada.
Não seu interior, mas o nada mesmo,
a insubstância, a perspectiva da volta
para a casa desabitada
onde não há vida durante todo o restar do dia.
Eu não falo com o homem do sanduíche
e o olhar de todos em redor não se cruzam.
Não são mal educadas as pessoas solitárias,
são amargas, e talvez pouco levem além disso com elas,
um saco de papel marrom com restos
que sempre sobrarão putrefatos na geladeira
fazendo companhia ao leite vencido, porém presente
como um atestado de indisfarçável condição.
À exceção de um esgar de inquietação,
são resignados os seres que partilham
suas miseráveis refeições.
Pode bem ser que nem tristes sejam
porque este sentimento quedou abandonado
junto com tantos outros
como manchetes velhas empilhadas
num canto do quarto de empregada.
Há solitários amarrotados, elegantes, dândis, impecáveis,
escanhoados como bebês ou com pelos
que desleixadamente crescem
como se ao rosto nem pertencessem.
Não importa.
Por todo lado há a marca do olvido
em prédios de apartamentos
que empilham precoces asilos.
Estão à margem e já não recordam do outro lado
e de como a ele chegar, se lembrassem.
Pontas de cigarro queimam nas calçadas.
Não estão mortas mas ninguém mais as fuma.
Logo serão varridas pelo vento e tragadas pelos bueiros
rodando num turbilhão sem nexo.

(zé eduardo)

Tuesday, March 27, 2007

Os Deuses Sabem
















Deus não sabe.
Os deuses sabem.
Nós sabemos.
Inquieta e aflita nave,
Circunavega a atmosfera úmida
E volta ao ponto de partida:
Onde quisemos, queremos, tornaremos a querer.
Seu coração tangencia o mundo,
Mas eu vou estar aqui,
Lar, âncora, lanterna, farol a iluminar as ondas
Que nem da luz natural precisam.
Estarão sempre lá, timidas, revoltas,
Regidas pela lua indecifrável.
E eu a faço concha e pérola,
Intimidade e esplendor ocultos.
Porque Deus não sabe.
Mas os deuses sabem.

(zé eduardo)

Friday, March 23, 2007

Seus Pés no Sofá



















Quando toco nos seus pés e você quase se entrega ao sono,
Eu sei em qual mulher estou tocando.
Roço a mão em sua pele e seus olhos se fecham,
Alheios ao que vive além da intimidade, onde tudo fica tão aquém.
E você se entrega ao que recorda: seiva, polpa, serena e feroz umidade.
É assim que a toco (nos tocamos):
Bárbaros guerreiros desmedidos,
Quadros dependurados nas paredes dos corpos,
Comunhão de signos, arfar de peitos que tentam se esconder
E que conseguem apenas entregar um ao outro o sentimento decifrado.
Impossível ilusão na transparência dos seus olhos,
Na comoção de seus lábios juntos em busca da unidade,
No tanger de um instrumento em busca da perdida harmonia.
Você se revela, nos envolvemos, e seguimos.
(No sofá depois do almoço nós somos solidários.
Mais que isso, cúmplices.
Mais que isso, amantes de desejos quase irreprimíveis.)

..................

Quando minha mão de novo percorre seu ventre,
Tudo está de volta em seu tempo e este tempo é sempre e não se sabe quando.

(Zé Eduardo)

Minha Casa
















Hoje minha casa habita dentro de mim
e eu a levo comigo como um caramujo
que se recolhe no aconchego.
A minha casa não é deserta:
é povoada de seres, ancestrais, mitos, amores.
Na minha casa não me faltam o alimento e a poesia e a música,
que fluem de suas paredes porque são parte dela,
assim como são partes de mim meus braços, minhas pernas,
minhas sobrancelhas arqueadas em pensamentos.
Não, a minha casa não tem paredes.
É generosa, minha casa,
e dá acolhida àqueles que dela se aproximam
com um ramo de flores nas mãos
como mais um tributo a meu jardim.
Minha casa não recebe quem não quero
e nem quem a mim não queira.
É honesta e simples e limpa
como se fosse toda caiada de branco,
e todos retratos nas paredes doces e eternos.
Na minha casa não há tempo, ganho ou perdido.
Há apenas espaço para os movimentos do meu coração.
Em minha casa as pessoas deixam os sapatos à porta
porque gosto que elas pisem em um chão
sem nada de entremeio.
O material de que minha casa é feita é a vida,
que cultivada durará muito além dela mesma.

(zé eduardo)