Friday, March 23, 2007

Minha Casa
















Hoje minha casa habita dentro de mim
e eu a levo comigo como um caramujo
que se recolhe no aconchego.
A minha casa não é deserta:
é povoada de seres, ancestrais, mitos, amores.
Na minha casa não me faltam o alimento e a poesia e a música,
que fluem de suas paredes porque são parte dela,
assim como são partes de mim meus braços, minhas pernas,
minhas sobrancelhas arqueadas em pensamentos.
Não, a minha casa não tem paredes.
É generosa, minha casa,
e dá acolhida àqueles que dela se aproximam
com um ramo de flores nas mãos
como mais um tributo a meu jardim.
Minha casa não recebe quem não quero
e nem quem a mim não queira.
É honesta e simples e limpa
como se fosse toda caiada de branco,
e todos retratos nas paredes doces e eternos.
Na minha casa não há tempo, ganho ou perdido.
Há apenas espaço para os movimentos do meu coração.
Em minha casa as pessoas deixam os sapatos à porta
porque gosto que elas pisem em um chão
sem nada de entremeio.
O material de que minha casa é feita é a vida,
que cultivada durará muito além dela mesma.

(zé eduardo)

Thursday, March 22, 2007

New Orleans
















A boca imita um pistom em surdina
na fumaça acre do jazz band.
A esquina é uma tábua de lavar roupa
e uns cinco crioulos dançarinos.

Wednesday, March 21, 2007

Um Curto Poema Para Monet













Dedaleiras, hortênsias, marias-sem-vergonhas,
hibiscos, rosas, papoulas,
no jardim de Monet.
Cheiros, atrações, espécies de bichos que voam,
regaços, fontes translúcidas,
nenúfares, ninfas das águas, pernilongos,
borrachudos fogem dos quadros
e mordem as pernas no museu.

Sunday, March 18, 2007

É Tão Cedo




















É tão cedo, que lá fora
É quase ainda escuro.
Nem os pássaros tateiam a surda madrugada.
O guarda da noite se foi
mas ainda não há quem guarde o dia.
As folhas ficam nas calçadas
alheias a uma brisa
que mal a si mesmo movimenta.
E de tantos sonhos em tantas casas
partem ancestrais, mundos ermos, fantasmas do passado,
toalha em uma mesa no centro de uma sala,
bola de gude, a mãe e o pai mortos,
duas criancas sentadas quietas em um sofá no canto,
sombras invadindo a bruma sem cerimônia.
….

Num piano em uma sala notas querem romper da partitura,
soluços prestes a arrebentar.
Mas não. É tão cedo, que lá fora
tudo ainda continua quase escuro.
Deixem que durmam os corpos largados nos colchões,
lassidão abandonada em branca alvura.
Deixem, assim: os corpos não se tocam,
aqui uma perna se enfia no meio de outras duas,
ali um braço abraça um seio,
mas os corpos não se tocam porque as almas dormem.
Ou melhor, não dormem, apenas restaram ausentes,
e mesmo no amor ficaram agora ausentes
como buraco negro no céu
que traga toda energia
em sua enorme e estelar voracidade.
(Eu durmo só em minha cama.
Algum bicho ruim levou minha amada embora.)

………

Tarda a alvorada em meu peito tardio.

(zé eduardo)

O Enterro do Tocador de Bandoneon














O tocador de bandoneon morreu.
Seu relógio foi empenhado na casa funerária
e o tango cortando o cortejo
crispava as mãos em torno das alças douradas.

Havia trinta e duas pessoas
no enterro do tocador de bandoneon.
E na outra quadra do cemitério
apenas alguns desconhecidos.
O sol sumia em torno dos olhos sincopados.

(zé eduardo_

Friday, March 16, 2007

A Mulher na Distância















Quando teus pelos, eriçados, se enrijecem
Quando atiras teus espinhos em minha carne inesgotável
Quando tua voz crispada toca ouvidos machucados
Eu penso em tua dor tanta
Nos noturnos animais que invadem teu repouso
Eu penso meu Deus de que grota escura brota a água amarga
Que nunca nenhuma sede saciará
Eu penso oh Deus porque minhas mãos não puderam te tocar
E meus olhos apenas viram o que luzia
Sem iluminar o negrume atrás de tuas retinas
E eu sinto esta tristeza de velório
Velas queimando ao lado do corpo, morto e insepulto
E que se extinguirão bem depois
Que o primeiro punhado de terra
Anunciar o doce silêncio do sepulcro.
Eu penso em teu imenso ser crepuscular
Deitado em um horizonte onde um sol estático
Teima para que a noite jamais chegue.

(zé eduardo)

Tuesday, March 13, 2007

Ainda





















Ainda que a luz baixasse oblíqüa
sobre as formas da manhã
que incandescesse avermelhada.
Ainda que nuvens corressem
e nelas víssemos,
feéricas crianças aturdidas,
moças, bolas, elefantes,
pés sinuosos a pisar
o desparelho caminhar dos dias.
Ainda que a terra se abrisse
e tragasse a tudo e junto o livro
que mãos inexatas continuam a escrever.
Ainda que flores brotassem
de terrenos inexatos
e espalhassem seus aromas
no rarefeito ar de uma vida rarefeita,
mesmo tudo isso mal seria
um torto aval para que o tempo prosseguisse.
Ainda que teus lábios me amassem,
e teus olhos, e a doce carne da proximidade,
tua fala amorosa condensada
nas púrpuras palavras do teu sexo.
Ainda que teu seios alvos
despertassem em minha boca,
me convidassem à plenitude
de te saber minha.
Ainda que com teu pulso,
cada segundo mais intenso,
inventasses a coreografia
dos corpos que se bailam,
sôfregos gestos das mãos
em busca do gozo da vida.
Ainda que a ciência se desvanecesse
e tu restasses desnuda
em toda tua intrincada geometria.
Ainda que você trouxesse sempre
os espelhos mesmos
de um caleidoscópio vário.
Ainda que o martelar dos deuses
forjasse a arma que um dia iria me matar,
ainda assim eu te convidaria,
minha trama de tecidos tergiversos,
minha cama de lençóis disparatados,
minha alma de tantas e todas aventuras,
ainda assim eu te convidaria a partilharmos
os destinos que habitam nossas vidas.

(zé eduardo)

Friday, March 09, 2007

Cinza




















Há um cinza uniforme sobre tudo,
poeira sobre a mobília
na casa subitamente abandonada.
As janelas batem com o vento
e a umidade cuida de apodrecer
as coisas com as quais ninguém mais se preocupa,
cuja própria existência quem um dia delas soube se esqueceu.
Todos se foram em silêncio
sem nem deixar qualquer memória.
Há um cinza uniforme sobre a alma
que não sabe mais que corpo habitar.
Há uma cinza uniforme no coração
que bate solitário e sem eco
enquanto um outro coração quer amar
mas olha para o luto e a perda
e não quer tirar as bandagens
para não expor à luz a cicatriz.
Há um cinza uniforme sobre o corpo
que não pode partilhar seus desejos
tenta criar um contato e depara com a refração,
um pedido para que ele, alma e coração
esperem, esperem,
um dia que quem sabe virá,
quem sabe poderá não vir,
desacontecimento rompendo círculos
para tangenciar a vida e espirrar
como cometas espirram
no choque do calor da atmosfera.
Há um cinza uniforme sobre tudo
que o dia cinza reluta em disfarçar.
Há um choro atrás da porta,
um trinco e uma chave,
há um grito sem repercussão.
Há um homem que caminha na chuva e sente frio
e que quer varrer dos ombros
o peso de sua condição.

(Zé Eduardo)

Monday, March 05, 2007

Apelo



















Antes que me digas com teu olhar de dor
que o horizonte tarda enquanto a noite avança em teus sentidos,
antes que me digas com teus lábios trêmulos
que em mim tu não mais te reconheces
e que todo gesto seria agora um acenar de tempos vãos,
antes que me digas com tua voz partida
que em teu ventre tu não mais me acolherás
e que a dor de tanta ausência tu a viverás em teu silêncio,
antes que me digas, alma dilacerada,
que nunca mais partilharemos nossos sonhos,
nossas febres, nossas peles uma em outra benfazejas,
as tristezas dos dias, o riso das noites, o encanto de todas as horas,
antes que me digas, com tua pele crispada,
que não é possível, que o tempo se esgotou nas madrugadas
em que sozinha mergulhastes teus cabelos de minhas mãos ausentes
no teu leito de mim desabitado,
antes que me digas que não mais te saberás minha
deixe eu te dizer quanto te amo.

Sunday, March 04, 2007

É Como se Toda a Poesia se Fosse



















É como se toda a poesia se fosse,
qual barco que esqueceu-se nos sargaços,
névoa onde bóiam fantasias.
Não há ecos, rochedos, e a vista, toldada, nada vê.
As sereias estão além das brumas
e mesmo seu canto não chega
a esta quietude indesejada.
Não há ondas, faróis, horizonte,
Num terreno onde o silêncio reverbera em si mesmo
e morre.
Fogo fátuo que os espíritos guia,
da à nau um caminho nos destroços.
Vento que sopra das cenas tenebrosas,
enfuna esfarrapadas velas para um porto.
Não posso ficar aqui onde ninguém ouve meu canto.
Não quero, trancado em paredes invisíveis,
Ver minha alma definhar como definham
marinheiros nos desertos tombadilhos.
Dai-me uma musa, um sopro que seja,
um alento, um sinal.
Queima o óleo de finita lamparina.
Logo mais tudo será escuridão.
Fulgura, brilho tênue da tristeza,
Transforma-te em archote que mãos cansadas levarão
À terra firme onde um outro eu me aguarda.

Repercute e multiplica, solidão,
para que, todas companheiras,
as vozes que em mim gritam
possam enfim compor uma ode triunfal.

(zé eduardo)

Saturday, March 03, 2007

Cheiro















Estou impregnado por teu cheiro
que não sai de mim quando me lavo,
como sangue sob as unhas nos abatedouros.
(Sombras surrupiam almas que, perdidas,
vagam sem saber da perdição
e julgam ter a dor de ainda existirem.
Tráfego silencioso de lamentos,
névoas dispersas nos barrancos
onde o mundo acaba.)
Estou contaminado por teus olhos,
que não me abandonam quando fecho os meus,
como as marés que seguem para sempre as luas.
(Trevas descem sobre as águas,
ondas sem lembrança de onde um dia houve luz.
Trânsito doloroso dos sinais,
farois que não evitam naufrágios.)
Estou tomado por teus pelos
que não desgrudam de meu corpo
como pétalas que brotam e ficam até a queda,
que não chega nunca.
(Movimento tenso de corpos
aos quais a morte chegou despercebida.)
Te prego nas paredes,
penduro e despenduro teus retratos,
até a hora em que perco tudo e durmo.

Thursday, March 01, 2007

O Sentido das palavras


















O sentido das palavras


Uma garrafa chega à praia com um bilhete dentro.
Há alguém numa ilha, acenando inutilmente
para os navios que passam ao longe,
até por que a salvação já chegou,
tão naturalmente como cocos despencam dos coqueiros.


Uma bala vara a noite e estilhaça uma janela.
Nela se abre um buraco por onde passam vento, frio, realidade.

(zem)

Tuesday, February 27, 2007

A Despedida













Não parecia tão certo e bom nos separarmos?
Então porque, mais que um crime, isso assombrou-nos?
Desconhecemo-nos, pois dentro
de nós um deus reina supremo.

Como trair a quem primeiro nos deu vida
e atribuiu sentido a nós, deus tutelar
que suscitou o nosso amor?
Traí-lo é algo que eu não posso.

O mundo tem, contudo, em mente um outro equívoco,
exerce outro afazer de bronze, as suas leis
são outras e o costume, dia
a dia, nos subtrai a alma.

Que seja: eu o sabia. Desde quando o medo.
que se arraigou disforme, opôs mortais e deuses,
devem morrer, para aplacá-lo,
com sangue, os corações dos que amam.

(Friederich Hölderlin 1770/1843)

Poema

















Tua voz ainda está descendo por estes rios.

Em todas as árvores
só se conta a tua história.
As sombras imitam formas do teu vulto,
os reflexos do sol te repetem.

Há tanto de ti
as coisas que olhaste
que se te quero encontrar
encosto o ouvido no seio da noite,
mergulho nas águas,
rolo na terra
e te sinto folhagem,
te respiro no vento.

Tudo o que em tua pele tocou,
colo de colina
chuva que te molhou,
relva em que dormiste,
pedras, estrelas, lagoas,
tudo com teu olhar me olha agora.

Teu rosto enche a paisagem circular
e voltando para cima
beija no espaço
a rosa dos dias.

Depois que anoitece,
lá fora a montanha
ainda é teu corpo branco
que se despe.

(Anibal Machado)

Em Suma








Navalhas doem
ácido mancha
o rio molha
drogas dão cãibra;
arma é ilegal
laço desfaz-se
gás cheira mal.
Viva: é mais fácil.

(Dorothy Parker)

Friday, February 23, 2007

As feridas

Não coço publicamente as feridas
Ou deixo que virem chagas,
Ainda que meu coraçao se escame,
Ferida exangüe.
Não canto samba-canção,
(E de fabrica nenhuma saístes
A merecer apitos, quiçá fossem três.)
Meu coração não vacila como se a leitura
Fosse o eterno ondular das imprecisas impressões
Dos eletrocardiogramas.
Nem minhas chagas torno invisíveis
No escuro de tantas desatinadas noites,
Nas quais me ponho qual latrina a aceitar dejetos.
Não fujo do gozo como o diabo da cruz
Que nem sequer comecei a aprender a carregar,
Ou cultuo a igreja que me impôs tal pecado.
Não aceito o que me afirmam tão torto.
Não sambo em tua quadra as canções que mal conheces,
Das quais apenas balbucias estribilhos
Chacoalhando languidamente
Qual cabide de armário
Trancado sempre num caminhão de mudança.

Brasília, 23/2/2007

Toda flor

Toda flor é uma flor que se cheire
Ainda que só pelo atavismo.
Nos inclinamos e aspiramos o que dela vem,
ainda que não cheire a nada.
As formas tomam o lugar dos sentidos,
e elas, centradas em sua beleza,
se regozijam em sua ingenuidade.
Pétalas viçosas com medo da queda
que nada mais é que o destino,
temem perder sua seiva,
que não perderão por não perderem a essência,
tanto a do perfume, quanto do que está para lá
de seus visíveis encantos.
Uma flor apenas renasce de si mesma,
do humus, da seiva, do que a faz brotar.
Seria como, depois de atribuir espinhos aos cactos,
tratar de fazer com que nos espetem impiedosamente
quando sua função é de apenas serem espinhos,
e não de causar dor,
ou precisar que pacientemente
os arranquemos de nossas carnes.
Há flores de toda espécie,
bem ao lado de um muro de cemitério,
contrastando suas cores com a rigidez dos ciprestes,
de noite, hieráticos contra o céu,
guardiães últimos do que dura
sem nem mais ter consciência de durar.
Dos ninhos nos ciprestes as andorinhas voam e,
Ao chegar a noite, dormem ao ponto
de jamais sabermos que existiram.
Interessante teia, a noite,
que envolve com sua sombra os desejos.
Ela os enreda e com sua geometria precisa
os transforma em ritmos que batem em corações
que não mais podem dormir tranquilos.
Quanta imprecisão nos hábitos, nos gestos adquiridos,
nos apelos mal guardados e necessitando expressão
sem olhos para a dor à volta.

…………….

Têm umbigos, as flores,
tem pernas, estames, pistilos,
a química da reprodução
que agora nada reproduz a não ser seus clichês.
Temem, as flores, que seu despetalar não venha mais com a manhã,
e sim com um amanhã que não podem jamais ajudar a fabricar.

Thursday, February 22, 2007

Eros e Psique




O coração trapaceia, ilude, engana,
Fantasmagoriza seu dono.
Mas a alma não.
O coração arma, negaceia, foge tão rápido de tudo
Que não lhe parece confortavel.
Mas a alma não.
Ama, a alma? Quer, a alma, deseja, goza a alma?
A alma sim.

Brasília 14/2/2007

Tuesday, February 20, 2007

No meu jardim

No jardim da minha imaginação
Tem cravos, primaveras, buganvíleas,
margaridas, girassóis, damas-da noite,
violetas, anêmonas, avencas, azaléias,
magnólias, lírios, narcisos, tulipas, primaveras.
No meu jardim tem antúrios, alcachofras, mimosas,
alpínias, gardênias, gérberas, bromélias,
cactus, camélias, e mato, muito mato.
No meu jardim tem bichos espantosos, abelhas,
tem chuva e depois da chuva,
tem sol e tem lua e noite,
ciclames, frésias e lírios,
prímulas e helicônias,
amores-perfeitos (e imperfeitos), violetas.
Tem grama e chão onde deitar
para ouvir o coração da terra
que molha nossos corpos no orvalho.
Do meu jardim a relva às vezes sai desordenada,
vitalidade que pula das sementes e se espalha para o céu.
E tem besouros, vagalumes, louva-deus, taturanas,
beija-flores, sabiás na comunhão
de tudo que cultua a luz.
No meu jardim a sombra é apenas o descanso
e o alívio quando o calor queima.
No meu jardim agora é outono
e a claridade bate de banda
como de banda a gente anda quando anda em solidão.
No meu jardim tem minúsculas casinhas
onde habitam deuses invisíveis,
imagens que conduzem nossas vidas.
No meu jardim as coisas fenescem e morrem e retornam,
eternamente.
No meu jardim tem espinhos e a aridez da argila,
massinha de moldar em busca de seu molde.
No meu jardim há olhos que não dormem e brilham no escuro,
fantasmas e ninfas que moram nas fontes.
No meu jardim a água corre e a seiva jorra dos troncos
e minhocas hibernam até revolver a massa escura, aconchegante e quente e úmida que vai dar na superfície,
onde as esperam o risco da morte retorcida na secura ou o alimento.
Não tem artifícios, o meu jardim.
Nele simplesmente tudo está ou não está,
porque nele o olhar revela tudo.
Mas tem uma coisa que falta em meu jardim.
No jardim da minha vida
eu quero é molhar a sua rosinha.

(zé eduardo)

Wednesday, February 14, 2007

Eros e Psique

O coração trapaceia, ilude, engana,
Fantasmagoriza seu dono.
Mas a alma não.
O coração arma, negaceia, foge tão rápido de tudo
Que não lhe parece confortavel.
Mas a alma não.
Ama, a alma? Quer, a alma, deseja, goza a alma?
A alma sim.


Brasília 14/2/2007