Wednesday, July 30, 2008

Poema

A oxidação pousou em minha lingua como o sabor da desaparição.
O esquecimento entrou em minha lingua e nada tive a fazer senão o esquecimento
E não aceitei outro valor além da impossibilidade.
Como um barco calcificado em um país do qual se tirou o mar,
Escutei a rendição de meus ossos depositando-se em descanso;
escutei a rápida fuga dos insetos e a retração da sombra ao ingressar no que restava de mim;
escutei até que a verdade deixou de existir no espaço e em meu espírito
e não pude resistir à perfeição do silêncio.

(Antonio Gamoneda)

Sunday, July 27, 2008

Escolhas









Ao longo de toda a nossa vida temos de enfrentar decisões angustiantes, eleições morais. Algumas são de grande escala; a maioria destas escolhas se centram em questões menores. Mas todos nos definimos através de nossas escolhas. Somos, de fato, a soma total de nossas escolhas.

(Primo Levi)

Friday, June 06, 2008

Imagem

Quando agora eu não preciso
E nem precisar mais sei
Eis que tu me arroubas com tua imagem
num sonho:
E volto de volta a você.
As coisas semelham nuvens,
Às vezes as nuvens semelham nada.

Zé Eduardo

Saturday, February 23, 2008

Y revisitada (2)

Estas coisas que o tempo não disfarça, ou engana.
Estas marcas que nada pode lavar,
nada que se conheça ou venha a ser descoberto,
sofás tintos de vinhos tornados prováveis
onde você escorre desabaladamente.
Bancos de praças nos quais me deito mirando
estrelas que remetem sempre a tuas doces constelações,
selvageria de gritos, esta baderna amorosa
que resolvi contra tudo e tanto querer,
mulher dos circos, abacadabra, truques da simplicidade extrema
a que resolvemos nos resumir.

Friday, February 22, 2008

Y revisitada











Pouco mais de metro e meio de vastidão
e a chave.
O suor que escorre de tua pele banha o mundo,
este perímetro em que o desejo pouco importa,
uma vez que sempre virá como tudo que passa
para sempre voltar, renovadamente.

Zé Eduardo, 22/02/2008

Tuesday, February 19, 2008

Neva muito no Líbano

Neva muito hoje no Líbano.
Sempre pareceu a nós praias ensolaradas
E cidades bombardeadas pela insanidade
De um mundo que escolheu – erroneamente –
o poder do estado sobre nós seres pequenos,
amorosos, herdeiros infelizes da ditadura do indivíduo,
revoluções de uma longínqua e enganada Europa.
O indivíduo, esta entidade melhor inexistente,
focilando nos shopping centers
onde se decide a ruptura dos tecidos das almas,
o desastre, os massacres, a plastificação das águas,
gota nenhuma a sobrar das torneiras e das fontes,
nada que mate mais a sede de uma sede que não sabe o que lhe falta,
esta rotina de desejo e frustração, estes dejetos,
estes escombros de onde hoje neva e no verão
há o sol com medo dos mísseis,
há a terra arrasada de onde veio minha mulher
e todos os seus filhos e netos a esperar que um dia
tudo se reconstrua, algo sobreviva à precariedade
de filósofos que ingenuamente pensaram inaugurar
a civilização que um dia julgaram ser essencial,
nossa condenação ao descaso e ao desdenho,
a tumba mesma de onde nossas vozes, oprimidas,
jamais deixarão de gritar.

Zé Eduardo,
10/2/2008

Sunday, February 10, 2008

Barcelona

Eu não sei quanto de Mediterrâneo
Se enxerga deste ibérico delírio.
Eu só sei que no meio do caminho,
Quando me encontrava numa selva escura,
A alva tua figura pressenti
E o canto que Colombo não pôde entoar
De seu pedestal sobre as águas
Eu o cantei todo, e mais, e além, e muito.

10/02/2008

Thursday, January 31, 2008

Pra dizer adeus

Este infecundo perseguir de nuvens,
poema que começa de seu fim.
Adriça de bandeiras, tramelas de portas que nunca se abriram
Ilusões arrebatadas dos cafundós da alma redescoberta
Morro que subiria hoje a pé nem que empoeirado achasse acima o nada,
Apenas para desencontrar o que nunca me foi dado como certo.

Zé Eduardo
30 de Janeiro de 2007

Saturday, January 26, 2008

Leve embora estas porcarias destas flores

Leve embora estas porcarias destas flores.
Eu não preciso delas.
Ou dos quadros. Principalmente dos quadros,
Trancafiados em um porão de onde talvez nunca mais saiam,
mandalas gritando sufocadas pela negação.
Não há mais que eu queira com nada disto,
meus fantasmas espraiados no quintal
no reino dos sapos, entes pegajosos, escorregadios,
lagartas a se tornar borboletas
embora se tornando jamais.
Leve embora estes milhares de palavras sem eco
que não mais minha alma tocam.
Leve embora teu corpo agora exíguo
de um leito adornado pelo quadro jamais visto a dois,
imagem feita pra nada, silêncio de panos amarelos
como as vestes de monges que orar ousaram,
vestidos só com os trajes de um ritual vazio e descartável,
na busca dos sentidos onde eles jamais moraram ou morarão.
Leve embora daqui teus agasalhos, panos um dia úteis para minha pele tão fria,
disfarces, engodos, onde tudo estava e nunca esteve e continua a estar,
como a coceira nos meus pés, como meus confusos cabelos
enfim ordenados como se o mundo tivesse chegado a um acordo
que nos abandonasse pra sempre,
sendo o sempre infindo fazer
a marca de nosso ser na vida.

Zé Eduardo

26/01/2008

Thursday, January 24, 2008

Teu vermelho

O rabanete é a prova mais cabal da existência de Deus.
Colhi teu vermelho em uma horta improvável
e o provei com a cristalina essência do branco,
mulher na qual a casca é o interior
onde pele e profundidade se misturam.
Assim aprendi o be-a-bá inédito dos sentimentos,
aprendi a entrega, as noites delirantes luminosas
de céu de teimosas estrelas, sempre na infinita trajetória,
negando os buracos negros que a tudo traga.
Assim sempre te adivinho,
tua magritude circular, teus recônditos silêncios
sempre a me dizer do tudo que ainda és não mais sendo.
E de teus nossos necessitarmos
como a polinização dos ventos
dos quais brotam flores inenarráveis.

Zé Eduardo, 24/01/2008

Wednesday, January 16, 2008

A longa viagem noite adentro

Um jato cruza o Atlântico
No inverso caminho das conquistas.
A bordo, a mulher fecha os olhos e sonha que dorme,
E mesmo fechados se adivinha seu brilho ansioso
(o mesmo que sempre tiveram em terra, perquiridores,
Além sempre de fronteiras comezinhas).
Isabel de Castela, Joana a Louca, Inês em nada morta,
Transposição de rios e São Franciscos, o cerrado a navegar
Na madrugada cristalina, visões abaixo tanto de zero,
Novas sensações interiores,
vísceras a chacoalhar sem turbulência,
a lua que tinge abaixo as nuvens em um tapete a se pisar,
branco e prata e solidão e caminho,
taça de vinho tinto a disfarçar o plástico jantar
e preparar o mesmo sono, de quem mais uma vez sonha que dorme,
e que preferiria talvez subitamente já estar lá,
passe de mágica de mãos inábeis que teimam em errar os movimentos,
ocultar da platéia o truque no qual nem se pensou,
necessária fuga de tudo, perplexo mirar do espelho no banheiro exíguo na cabine.
O ponto do não retorno, ilhas de silêncio trinta e três mil pés abaixo,
E o coração a tudo vê, o gordo que ressona na poltrona ao lado,
A moça que lê um livro, outra que atentamente segue o pasteurizado filme na tela
onde mal se vê quão belos seriam os ídolos na vida real, se existissem,
A tripulação que dorme seu exíguo tempo a caminho do hotel,
para o repouso que será pouco mais que um banho
e o consolo do frigobar antes da volta a casa nenhuma.
....

Um canal na tela mostra à mulher que fecha os olhos o instante de percurso.
Tanto ainda de mar a viajar, tanta distância ao destino inextricável do passado, fosse como por ele moldado:
Um futuro disforme e oblíqüo, a ser preenchido por momentos até sua definitiva forma,
até que a impermanência se solidifique a ponto de dizer,
aqui estou onde não estou e onde porventura estar quisera.

............

Um jato sobrevoa a fenda que desuniu os continentes,
E a mulher pensa em tudo que os preenche,
Tudo que acaso existe, estrelas que mal enxerga
Da janela embaçada pelo gelo.
E ela continua em seu dormir envolta alerta no tênue cobertor do avião e da vida,
Rumo a tudo que sempre sonhou, se dormisse.

Zé Eduardo
16/1/2008

Thursday, January 03, 2008

Os verdes todos de Ana Luíza

Água.
As pedras de uma pulseira que um dia minha mãe usou.
Os sinais de trânsito livres.
Uniformes de varredores de rua.
Uma bicicleta encostada na grade de um canal.
A fumaça de varetas de São João.
Os fogos de artifício no céu formando uma estrela enorme
A ofuscar todas as outras.
Um biquíni desbotado pelo uso, quase entregando os pontos.
Barra de saia.
Locomotiva.
Peixes.
Lâmpada na beira da banheira.
Sal de banho.
Absinto.
Uma placa que diz: Governador Valadares.
Em Governador Valadares, uma revista.
Um poeta português.
A invenção da paleta de Veronese.
Parques, árvores, mato, parcialmente flores.
Fronha de travesseiro na praia.
Folhas de música renascentista (ou seria medieval?).
Cana de açúcar, bambu.
Cachorro não. Gato também não.
Bicho gafanhoto.
Veias, em certas peles.
Unhas, em mulheres improváveis.
Maquiagem, idem.
Tsunamis sem areia ou barro ou morte.
Nada disso o mesmo verde
O ver-te mesmo dos teus olhos.

Zé Eduardo
3/1/2007

Saturday, December 29, 2007

Tudo

Ainda que fostes um porto diferente a cada dia
(como tenho certeza que tu és),
Eu deles zarparia contigo sem temor rumo sempre
A tudo que não sei e que te descobre e te desvela,
Panos enfunados pelos ventos da fortuna,
Movimento de teus ciclos, luas adernadas em céu
De uma amplitude em que feliz mergulho
Eu que te sei tão pouco e te intuo tempestade,
Cheiro da água a molhar o chão tão seco,
O que brota de ti, borbotões de suco e sede,
Alvura de tecidos que perguntam
Onde fostes achar os solos que agora pisas,
Onde me achastes, eu que tomava por ser
Inabordável, a avançar na defesa de terras sacras
Dominadas por deuses amargos e furibundos
A clamar: não vás, não fiques, estatuária vã
De empedernidos sentimentos.
Hoje meu coração se abre como as torneiras de fontes sempre abertas,
Hoje eu, barroco, olho arquiteturas voltadas a um céu que desvendastes,
Hoje eu, gótico, como tudo que mira acima em reverência,
Caminho a passos plenos na direção de tudo que iluminas.

29.12.2007

Nem tudo

Você não é bloco, quadra, céu, esplanada,
Vizinhança, igrejinha, faisão dourado,
Piauí, boteco na Vila Planalto,
Cachaça em tudo que é canto bom,
Legumes em Vargem Bonita,
Boteco da Dani, tempestades com ela vividas
Na nudez mágica dos clarões no horizonte.
Você não é o palmilhar tateante da clínica
Onde no sudoeste a cura tenta encontrar o paciente.
E nem tampouco tudo que é gelado e pedregoso
Numa chapada em que achei muito mais que água e rochas.
Você não é um território. Ou uma conquista.
Ou as flechas que quedam amortecidas nos escudos
Sem jamais terem tido alvo claro
por conta de sua exigüidade como arma.
Você não é o abandono do córrego do Palha,
Seus morros de tantos ventos uivantes.
Você não é nem maracatu nem frevo nem samba
Nem todas as manifestações pastoris verde-amarelas.
Nem pára-choque de caminhão a dizer
Eu sou tão teu.
Você tem os pelos lisos dos mais íntimos dragões
A expelir fogo apenas por costume.
E eu aqui com esta cara de paisagem
Miro você, quadro, moldura, cena, pele,
De tudo que quero e ambiciono e desejo e amo.

28.12.2007

Monday, December 24, 2007

Mal das pernas

São estas tuas andarilhas pernas,
Ainda que rotas,
A te levarem até mim.
São estes teus desejos bandoleiros,
Esta tua sensibilidade para a margem,
Teus desenhos de improváveis equilíbrios,
Teu abraçar as formas inconsúteis,
Teu sobrenatural dom de atravessar paredes
O que remete a este doce estado amoroso,
O espernear de tuas rebeldias
O bater de douradas sapatilhas
Em chão de minérios insuspeitos
De tuas geraes amplas, das colinas temperadas
Pelo marchar dos ancestrais
Aos quais tú tão singular prestas tributo.
São teus distantes e silentes soluçares
Nas despovoadas madrugadas de tuas dores
Que eu reluto, e luto, sempre, em habitar.
São estes teus jardins,
Oceanos vistos das serras,
É esta sede de teus córregos perenes,
É este imaginar que tuas águas nunca irão secar,
São estes divinos gestos:
O me sentar à tua mesa,
O me espargir no horizonte de teu verde,
Me encantar em tudo que em ti é acolhimento e seio.
(Não sou de escrever longos poemas,
Acho que nem sei como fazer.
Mas em tua falta é assim que te falo:
Bicicletas de aros tortos,
Formigar de coisas que fingem dormir.
Eu desde que te conheço já dei a volta ao mundo
Em tua desprocura, e tu fostes tudo que encontrei.)

Sunday, December 23, 2007

Esta coisa tão tamanha














Venta, sopra, semeia,
Tremeluz, ilumina, incandesce,
Varre, desentranha, arrasta os horizontes
Deste redesenhar de mim.
Traz todos os detritos
E os gemidos e os gritos que um dia a terra há de comer.
Vem, me entrega tuas pernas inexatas,
Fala a rumorejar no eco
de tudo que é montanha.
Água viva que me queima de esplendor,
Onda a encrespar os rumos dos barcos todos,
Me chama a teu ancoradouro
Ainda, e bem, que ele se chame movimento,
E afaste e desalinhe qualquer permanência.
Eu quero você fluida, corrediça, pasmada, juntada junta
De desconexões tamanhas,
O que trafega na lentidão de cílios que se juntam
E abrem profusão, desencaminho, o que não se esperava nunca
E hoje, nesta madrugada, é tudo que eu sinto,
A imensidão de espaço pouco e vário,
Bastante para amar a vida toda.

22.12.2007

Friday, December 21, 2007

Faltava tanto pra dizer

Não é um verde da água,
nem de torneira, de mar, de rio,igarapés,
corredeiras, cachoeiras que despencam sobre mim
como teus cabelos,
nem das florestas densas que te cercam
contra tua teimosia de elas existirem.
É este verde que não defino,
que ninguém nunca poderia definir,
maravilhamento que escapa do que dele brilha e reluz.
É o verde de ti que culmina nos teus olhos,
o verde que queria deitado sobre mim sempre,
cor a se distribuir em luz de alvorada, anoitecer, tempo.

Zé Eduardo, 21.12.2007

Wednesday, December 19, 2007

A Morte Definitiva

Querer matar algo que não morreu
nem nunca esteve em sua hora fatal
é como acreditar no poder letal
das zarabatanas dos pigmeus de Bandar,
páginas tiradas de gibis da infância,
traços em preto e branco com a granulação
do sonho, do perdido e do desejo na solidão
de camas desarrumadas.
Querer cravar estacas a delimitar novos territórios
equivale a salgar as terras mesmas
para que nelas nada mais nasça,
ou vingue, ou cresça.
Querer empurrar para fora da vida
o que habita profundo dentro
é expulsar da alma o que nos dá pousada.

São Paulo, 19 de dezembro de 2007

Thursday, November 29, 2007

Para Raquel

Os tons de tua pele, as matizes muitas de teus cabelos ruços
e de teus sempre poucos adereços
Fazem um arco-íris que termina sempre em um pote de ouro.
Não o das compras, trocas, transações, mas o dos alquimistas,
O estado último das coisas, a eterna transformação, sol que nunca mais será o mesmo
Ainda que assim pareça todo dia num azul profundo de uma cidade
no topo de algum mundo
E aqueça muito além da epiderme.
O ouro negro da tua fonte
Onde tudo há de se beber.
(Os ouros outros das tuas magias
Das quais o mundo se aproveita
Para nascer o alimento de toda manhã.)
Radiância da tua voz ressoando ao telefone,
Tudo em você tem cor.
Pálida musa, versos do cantar eterno,
Tu vens sempre nesta encontrar de plenitudes,
Estrela que me faz cantar.
Todo tempo tu te reinauguras e me reinaugura,
E prever-te nunca há como.
E é assim, amor meu de toda uma vida,
Que registras o teu brilho
E esmaeces em abandono
Até que nos resgatemos e tudo mais uma vez
Vire poema.

29.11.2007

Monday, November 05, 2007

A Sagração da Primavera

"Time present and time past
Are both perhaps in time future,
And time future contained in the past"

(T.S. Eliot, Burnt Norton, The Four Quartets)


Noite no hospital.
Mariposas teimam em se fragmentar contra as vidraças.
O ar úmido de uma terra sempre seca, presságio que não vi.
Assim como não vi quem foi que engasgou com o dia, ou com o tempo.
Primeiro de janeiro, e há no ar os anos que não irão jamais passar,
um cheiro que não te pertence e me pertence e me foge.
No guichê me pedem que aguarde, e para isto os guichês foram feitos:
para tirar a senha, adivinhar a hora do atendimento que virá.
Tudo é hora, mesmo o que se pensa fora dela.
O doutor de branco diz que não é nada.
Que observemos. Como se ainda houvesse algo para juntos observarmos.
Não há. Houve. Ou não houve, e volto para casa por um caminho comum
apenas pelo íngreme de um morro, terra, a visão negra do lago abaixo?
E olho o negro do lago abaixo, que logo cederia sua cor ao sentimento.
Olho tudo que foi, até que escolho não olhar mais nada.

Zé Eduardo, 4/11/2007